Foto: Marcelo Camargo
Uma publicação inédita na revista científica norte-americana “Science” destaca a importância de unir o conhecimento tradicional indígena à ciência ocidental como solução para a preservação da Amazônia e o combate à crise climática. O estudo é assinado por cientistas indígenas dos povos Tuyuka, Tukano, Bará, Baniwa e Sateré-Mawé, em parceria com pesquisadores não indígenas da Universidade de Princeton (EUA) e de instituições brasileiras, como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O artigo, que representa um marco para a ciência mundial, traz uma visão crucial: os povos indígenas possuem conhecimentos milenares sobre o equilíbrio ecológico, que podem somar-se às pesquisas científicas contemporâneas.
De acordo com Justino Sarmento Rezende, cientista indígena da Ufam e um dos autores do estudo, a visão dos povos originários rejeita a separação entre humanos e natureza. “Enquanto a ciência biológica começou a falar de ecologia mais recentemente, os indígenas já compreendem há milhares de anos como funciona o ciclo da vida e a interdependência entre seres humanos, animais, plantas e o ambiente”, explica.
Para os povos do Alto Rio Negro, no Noroeste do Amazonas, a harmonia entre os domínios terrestre, aquático e aéreo é mantida por meio de práticas ancestrais, rituais e profundo respeito a todos os seres que habitam o planeta.
Carolina Levis, pesquisadora da UFSC e coautora do artigo, destaca que o futuro sustentável depende do reconhecimento do protagonismo indígena. “Os especialistas indígenas cuidam da Terra há muito tempo. É preciso incluir esse conhecimento nos processos de decisão e investigação científica para avançarmos com respeito e eficiência”, afirma.
O estudo traz ainda reflexões sobre práticas fundamentais dos povos indígenas, como a observação das constelações e dos ciclos da Terra, que influenciam a produção de alimentos e a preservação dos ecossistemas.
Ao colocar lado a lado ciência indígena e ciência ocidental, o artigo reforça uma mensagem clara: o diálogo entre múltiplas formas de conhecimento é o caminho mais eficaz para enfrentar os desafios climáticos e ambientais do nosso tempo.