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Quando a palavra vira passo: Gama ocupa as ruas com literatura e resistência contra o feminicídio

23/04/2026
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Nem toda manifestação começa com grito. Algumas começam com palavra. E quando palavra encontra corpo, vira movimento.

Foi assim no Gama, onde cerca de 200 pessoas transformaram a cidade em página aberta durante a primeira Caminhada Literária de Combate ao Feminicídio, promovida pela Academia Gamense de Letras.

O trajeto, da sede da entidade até a Administração Regional, foi menos um percurso físico e mais um gesto coletivo de escrita no espaço urbano. Faixas, cartazes, vozes e silêncios compartilhados compuseram uma narrativa que não estava apenas sendo dita — estava sendo vivida.

E havia ritmo.

A bateria da Mocidade do Gama pulsava como coração da caminhada. Cada batida parecia lembrar: cultura também é linguagem de enfrentamento. Cultura também protege. Cultura também educa.

Para a presidente da AGL, Zenilda Vilarins, a proposta ultrapassa o simbolismo e se inscreve como prática social.
“A Caminhada Literária Passos e Versos por Elas reafirmou nosso papel na sociedade, o compromisso com a transformação social e a conscientização sobre a nossa realidade. Mais do que um evento, foi um momento de reflexão, de exercício da empatia e de reconhecimento da literatura como uma poderosa ferramenta de mudança capaz de transformar pensamentos e atitudes. Seguimos caminhando, escrevendo e refletindo, sempre juntos.”

A caminhada também expôs uma dimensão fundamental: o enfrentamento à violência contra a mulher precisa ser coletivo — e isso inclui os homens. O idealizador da ação, Manoel Pretto, trouxe essa provocação para o centro do debate.
“Os homens precisam assumir essa luta como parte da sua própria transformação. Não se trata apenas de apoiar, mas de reconhecer o papel que historicamente tiveram nessa estrutura e agir para mudar essa realidade.”

Entre os rostos atentos, estavam crianças da Escola Classe 21 do Gama, com cartazes feitos à mão — pequenos manifestos coloridos que carregavam uma mensagem grande demais para ser ignorada.

A professora aposentada Zelma da Luz, que acompanhou a atividade, resumiu o impacto com precisão afetiva:
“Essas crianças nunca vão esquecer esse momento. Elas estão aprendendo valores que vão levar para a vida inteira.”

Presidente da OAB Gama, Fabrina Gandra.

A presença institucional também marcou o ato. A presidente da OAB Gama, Fabrina Gandra, reforçou que o enfrentamento à violência exige atuação contínua e articulada.
“Nós estamos aqui para garantir que nenhuma mulher caminhe só. As mulheres merecem caminhar livres e sem medo”, afirmou, ao destacar projetos de assistência às vítimas e ações de conscientização durante jogos de futebol, onde os índices de violência tendem a crescer.

Já Edilamar Melo, a Dila, presidente da Mocidade do Gama, trouxe a dimensão comunitária da cultura.
“O papel social da escola vem em primeiro lugar. A gente precisa estar junto da comunidade, levando arte, alegria e consciência. Estar presente nesses movimentos também é fazer cultura.”

Mesmo com a paralisação de professores, que limitou a participação de escolas, a caminhada não perdeu força. Pelo contrário: ganhou densidade.

Porque ali não se tratava apenas de números.

Tratava-se de memória sendo construída em tempo real. De corpos que caminham para que outras mulheres possam caminhar sem medo. De literatura que abandona a estante e decide ocupar a rua.

No fim, talvez essa seja a imagem que fica:
um cortejo onde versos não são lidos — são vividos.

E quando isso acontece, a cidade inteira escuta.

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