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Carnaval como arquivo vivo: quando Cametá grava a própria memória (e a Amazônia ocupa o centro do palco)

08/01/2026
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Na América Latina, a festa nunca é só festa. Ela é também idioma, arquivo, trabalho, disputa por narrativa — e, sobretudo, um jeito coletivo de dizer “nós estamos aqui”. Em cidades atravessadas por rios, fronteiras e migrações internas, o Carnaval costuma funcionar como um relógio social: marca o tempo da comunidade, reorganiza afetos, ativa lembranças, cria personagens e devolve pertencimento.

É nesse ponto que a gravação do audiovisual “Carnaval Raízes”, da cantora Zaynara, em Cametá (PA), ganha um sentido que vai muito além do entretenimento. Na prática, o projeto transforma a folia cametaense em registro — e o registro em ferramenta de circulação cultural. A gravação ao vivo acontece em 9 de janeiro de 2026, na AABC, com entrada gratuita a partir das 20h, e cenografia com referências simbólicas amazônicas, como a vitória-régia.

Quando gravar não é “conteúdo”, é soberania cultural

Hoje, a palavra “audiovisual” costuma aparecer colada ao vocabulário da indústria: plataforma, engajamento, recorte, trend, viral. Mas há um detalhe importante: nem todo registro nasce para caber em algoritmo. Alguns nascem para impedir o desaparecimento.

No Norte do Brasil — que também é América Latina em sua forma mais pulsante — o gesto de gravar um Carnaval “de raízes” opera como afirmação: a Amazônia não é apenas cenário exótico, nem rodapé de noticiário climático. É centro criativo. E a música popular amazônica, com sua pluralidade, não pede licença para existir: ela ocupa o microfone, o palco e o repertório.

Zaynara apresenta o projeto como celebração do tradicional Carnaval de Cametá, com releituras de sucessos marcantes da folia local, além de faixas autorais, e recebe uma lista extensa de convidados ligados à cultura da região — de Baile do Mestre Cupijó a Iolanda do Pilão, passando por artistas e grupos que ajudam a desenhar a identidade musical cametaense.

O Carnaval como “situação sociocomunicativa”

Há um conceito precioso na pesquisa brasileira sobre cultura: o de Carnaval como situação sociocomunicativa, isto é, um acontecimento em que estética, política, organização social e comunicação se misturam para produzir sentido público. O sociólogo Edson Silva Farias, em estudo vinculado ao Repositório da UnB, analisa como o desfile (e a trama carnavalesca) estrutura papéis, lideranças estéticas e formas de expressão coletiva.

Cametá, com sua tradição e suas dinâmicas próprias, atualiza essa ideia de maneira potente: quando o Carnaval vira palco e o palco vira gravação, a festa se transforma em linguagem exportável sem deixar de ser local. Não é a cultura “se adaptando” ao olhar de fora; é a cultura se apresentando com as próprias chaves.

E isso importa muito porque, na América Latina, o que circula costuma ser filtrado por centros econômicos e simbólicos. Registrar o Carnaval cametaense com seus artistas, seus timbres e seus símbolos é uma forma de dizer: a nossa estética também é referência.

A festa também é trabalho

Trazer essa lente para Cametá é essencial para entender o peso de um audiovisual como “Carnaval Raízes”. O show gratuito é o momento visível; por trás, há ensaio, técnica, equipe, logística, sonorização, produção, deslocamento, figurino, articulação com convidados, estrutura de palco. É cultura como cadeia produtiva — e, ao mesmo tempo, como tecnologia social: mobiliza gente, gera renda, fortalece redes, cria orgulho local.

A própria história do projeto reforça isso: o texto de apresentação destaca a participação do pai da artista, Nildo Assunção, baterista e figura decisiva para que a ideia “saísse do papel”. É um lembrete bonito de como, na cultura popular latino-americana, o talento individual raramente caminha sozinho: ele vem amarrado a família, vizinhança, mestres e coletivos. O Liberal+1

O risco da “midiatização” sem território — e o caminho possível

Cametá não é Parintins — e não precisa ser. Mas a reflexão vale como bússola: o desafio contemporâneo é crescer sem se descaracterizar; circular sem “folclorizar”; monetizar sem deslocar protagonismos; ganhar o Brasil sem perder o chão.

O título “Carnaval Raízes” sugere exatamente esse pacto: o de uma modernização que não apaga origem, mas a amplifica.

“Sou do Norte” e o direito de narrar a própria geografia

Há uma frase que a Amazônia exige do país, repetida de muitas maneiras: o Norte não é periferia cultural. Quando Zaynara leva para o projeto músicas como “Sou do Norte” e repertório conectado ao território, ela aciona um direito latino-americano fundamental: o direito de narrar a própria geografia. O

Nossos mapas culturais sempre estiveram em disputa. E a disputa não acontece só em congresso, museu ou editais: ela acontece na rua, no som, na festa, no coro coletivo. Uma gravação ao vivo, feita no lugar, com o lugar, é também um gesto político — no melhor sentido: o de construir presença.

O que Cametá pode ensinar ao resto do continente

Se você olhar para a América Latina de ponta a ponta, vai encontrar a mesma pergunta em diferentes idiomas: como manter tradições vivas sem congelá-las? Como transformar cultura em futuro — sem vender a alma do passado?

Cametá oferece uma resposta simples e sofisticada ao mesmo tempo: fazendo a festa do seu jeito, mas registrando com qualidade, abrindo a porta para novos públicos, e mantendo o centro de gravidade onde ele sempre esteve: na comunidade.

É por isso que “Carnaval Raízes” interessa até a quem nunca pisou no Pará. Porque ele aponta para um modelo de circulação cultural que não depende de pedir autorização ao eixo de sempre. Ele cria rota própria: do Baixo Tocantins para o Brasil — e, por que não, para a América Latina que se reconhece na mistura de tradição, improviso e reinvenção.

Se a festa é arquivo, o audiovisual vira biblioteca. E quando uma biblioteca abre, o continente inteiro ganha mais uma forma de se ler.


Referências (para pauta e aprofundamento)

  • Farias, Edson Silva — estudo sobre desfile/carnaval como situação sociocomunicativa (Repositório UnB / SciELO). Repositório UnB+1
  • Costa, Sérgio Henrique Barroca — tese “Carnaval: trabalho ou diversão?” (Repositório UnB). Repositório UnB+1
  • França, Paulo Renan Rodrigues de — dissertação sobre impactos socioambientais do Festival de Parintins (UnB). Repositório UnB+1
  • Informações do evento e serviço (Cametá/PA, 9 jan 2026):

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