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O olhar do outro: por que nos preocupamos tanto com o que pensam de nós?

19/10/2026
Silhueta diante de espelho e olhos abstratos, ilustração sobre reconhecimento e autoimagem.

Ilustração gerada por inteligência artificial para o CidadeCult.

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Por Renata Nandes

Artigo autoral — Uma reflexão psicanalítica sobre reconhecimento, autoimagem e a liberdade de existir sem transformar cada encontro em um julgamento.

Antes de entrar em uma sala, às vezes já estamos nela. Imaginamos a recepção, antecipamos uma crítica, ensaiamos a frase que parecerá inteligente. O encontro ainda não aconteceu, mas uma plateia interior tomou seus lugares. Quem nos observa nesse instante? A pessoa que encontraremos ou a versão dela que construímos para tentar adivinhar nosso próprio valor?

Importar-se com os outros faz parte de uma vida compartilhada. Desejamos acolhimento, pertencimento e reconhecimento. O problema começa quando cada gesto parece precisar de autorização: uma roupa, uma escolha profissional, uma opinião. Nesse ponto, a expectativa alheia pode ocupar tanto espaço que já não sabemos de onde vem a pergunta que conduz nossa vida.

Uma imagem que nunca é apenas nossa

Na perspectiva lacaniana, o sujeito se constitui em relações e na linguagem. A imagem de si não nasce pronta, em um lugar protegido das palavras recebidas. Nomes, ideais e expectativas nos precedem e oferecem referências para o que imaginamos poder ser. O Outro, com maiúscula, designa uma dimensão simbólica dessa constituição; não corresponde simplesmente a uma pessoa concreta que nos avalia.

Essa distinção ajuda a deslocar a conversa. A preocupação pode persistir mesmo quando não há alguém criticando. Uma exigência familiar, um modelo de sucesso ou uma ideia rígida de feminilidade podem continuar funcionando como medida íntima. Na leitura que proponho, a pergunta relevante é também quem ganhou o direito de definir o que consideramos uma vida aceitável.

Ser reconhecido não é o mesmo que conseguir uma confirmação permanente. O reconhecimento vem de pessoas que também hesitam, mudam de opinião e carregam expectativas próprias. Transformá-lo em garantia de identidade é pedir a uma relação algo que ela não pode estabilizar de uma vez por todas.

O que uma pesquisa pode — e não pode — dizer

Uma pesquisa de Irene Melani e colegas, divulgada pela Universidade de Michigan em outubro de 2026, oferece um ponto de diálogo. Publicado em Psychophysiology, o estudo examinou 57 jovens adultos norte-americanos de ascendência europeia. Eles observaram imagens de olhares seguidas de palavras sobre estados mentais, enquanto sua atividade elétrica cerebral era registrada.

Maiores níveis de ansiedade social estiveram associados a uma resposta N400 mais intensa diante de combinações incompatíveis entre o olhar e a palavra. Esse sinal se relaciona ao processamento de incongruências de significado. A associação não correspondeu a melhor desempenho observável na tarefa. Uma condição de comparação com imagens de animais, com 50 participantes, não apresentou o mesmo padrão.

O recorte é específico e não demonstra por que alguém desenvolve ansiedade social. Tampouco autoriza transformar sofrimento em uma suposta habilidade superior de compreender pessoas. O estudo investiga um processo neurocognitivo; não testa a teoria lacaniana. O conceito psicanalítico de olhar, discutido no Seminário 11, também não se reduz à direção dos olhos nem a uma medida de eletroencefalograma.

A vida diante de uma audiência imaginada

Sem confundir esses campos, podemos sustentar uma pergunta própria da reflexão: quanto esforço dedicamos a interpretar sinais que talvez não tenham o sentido que lhes atribuímos? Uma pausa pode se tornar desaprovação. Uma resposta breve, rejeição. A experiência do encontro passa a disputar lugar com o trabalho incessante de prever seu resultado.

Não se trata de desqualificar o que sentimos. Uma emoção tem efeitos reais mesmo quando a interpretação que a acompanha permanece incerta. Mas existe uma diferença entre reconhecer que tememos um julgamento e tomar esse julgamento como fato consumado. A dúvida, tão incômoda, também pode preservar a possibilidade de descobrir algo que não estava em nosso roteiro.

Nas redes sociais, essa tensão ganha uma forma visível. Há números, comentários e imagens selecionadas para circular. Uma apresentação parcial da vida pode parecer uma avaliação completa de quem a vive. Proponho ler essa experiência como um palco que facilita comparações, sem atribuir a todas as pessoas o mesmo efeito ou apresentar essa interpretação como resultado do experimento de Michigan.

O risco é começar a escolher o que poderá ser mostrado antes mesmo de perguntar o que desejamos viver. Uma viagem se torna cenário, uma ideia busca a reação ideal, o descanso precisa parecer produtivo. A plateia pode estar ausente; o trabalho de agradá-la continua.

O espaço entre reconhecimento e autorização

A liberdade não exige indiferença. Podemos considerar uma crítica, rever uma decisão e reconhecer o efeito de nossos atos sem entregar ao julgamento alheio a tarefa de encerrar quem somos. Escutar alguém não obriga a transformar sua expectativa em destino.

Talvez a questão mais difícil seja tolerar que uma escolha não produza unanimidade. Desejar implica perder algumas possibilidades, inclusive a de corresponder a todas as versões que esperam de nós. Há uma vida que só começa a ganhar contorno quando admitimos que nem toda frustração do outro representa um fracasso nosso.

Ninguém existe fora dos vínculos. Ainda assim, vínculo não precisa significar submissão a uma imagem. Podemos precisar de reconhecimento e, ao mesmo tempo, recusar que ele seja a condição de cada passo. O olhar do outro participa de nossa história; não precisa receber a última palavra sobre o que ainda podemos escrever.

Referências: Melani, Berg, Glazer e Kitayama, Psychophysiology, 2026; Jacques Lacan, O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Zahar; Jacques Lacan, Stanford Encyclopedia of Philosophy. Veja também a coluna Renata Nandes.

Ilustração gerada por inteligência artificial para o CidadeCult.

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