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Ilus transforma liberdade, arte e presença em território de criação no Espírito Santo

08/04/2026
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Há artistas que não apenas escolhem a arte como linguagem, mas a tornam uma forma de existir no mundo. É nesse lugar que se inscreve a trajetória de Ilus, artista que vem construindo um caminho singular na cena cultural capixaba ao unir música, dança, performance e poesia em uma obra marcada pela experimentação, pela liberdade e pela recusa em ocupar espaços previamente delimitados.

Aos 46 anos, Ilus faz da própria vivência um campo contínuo de criação. Natural do Rio de Janeiro e morando no Espírito Santo desde 1997, a artista desenvolveu uma trajetória múltipla, atravessada por linguagens e referências diversas. Ao longo do tempo, passou por universos como poesia, música eletrônica, ópera, funk, jazz e blues, sempre guiada pelo desejo de experimentar novas possibilidades de expressão.

Mais do que uma escolha estética, essa liberdade tem relação direta com a necessidade de construir um lugar próprio. Ilus afirma que essa busca atravessa todos os aspectos de sua vida e se conecta à percepção de que determinados espaços simplesmente não estão dados. Por isso, criar passa também por experimentar, deslocar-se e inventar caminhos possíveis antes mesmo de aceitar qualquer definição pronta.

A arte, nesse percurso, se tornou também uma forma de reorganizar o mundo. Depois de enfrentar períodos difíceis, incluindo um quadro de depressão, Ilus encontrou na criação um eixo de sustentação e permanência. Em 2021, ao receber o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), iniciou um processo de redescoberta pessoal que mudou a maneira como enxergava a própria história, suas frustrações e suas tentativas de adaptação a expectativas externas.

Foi a partir desse processo que a arte passou a ocupar um papel ainda mais central. A música e a criação artística deixaram de ser apenas linguagem ou interesse e se consolidaram como o principal alicerce de sua vida. Essa compreensão ajudou a reorganizar não apenas a carreira, mas também a relação de Ilus com o próprio corpo, com a subjetividade e com a presença em cena.

O contato com a arte, no entanto, começou ainda na infância. No Rio de Janeiro, a mãe incentivou os primeiros gestos criativos, oferecendo materiais para desenho e aulas de dança. Mais tarde, embora o primeiro hiperfoco tenha sido a física, área em que Ilus chegou ao doutorado, foi o canto lírico que se tornou a paixão mais intensa e permanente.

Essa multiplicidade também aparece no palco. Ilus constrói uma presença cênica que desafia classificações imediatas e desloca percepções sobre gênero, aparência e identidade. A linguagem drag surge como recurso de ruptura, com maquiagem, cabelos e visual marcantes que ampliam a potência performática e instauram perguntas no lugar de respostas prontas. A cena, nesse sentido, deixa de ser apenas espaço de apresentação e passa a funcionar como campo de provocação, invenção e afirmação.

Na produção autoral, experiências ligadas ao autismo também atravessam a obra. Esse movimento aparece, por exemplo, no álbum Natureza Líquida, lançado em 2023, e ganha nova dimensão no atual momento de pesquisa artística. Na fase final do curso de Música da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ilus desenvolve como Trabalho de Conclusão de Curso a composição de sua primeira ópera autoral sobre autismo. O projeto reúne música, dramaturgia e elaboração estética em uma proposta que amplia a discussão sobre neurodivergência no campo da arte.

Ao mesmo tempo em que avança na composição da ópera, Ilus também projeta o retorno aos palcos com produções próprias. A intenção é seguir ampliando a circulação de sua obra e ocupar espaços para além daqueles tradicionalmente reservados a artistas PCD, autistas ou dissidentes de gênero. A reivindicação, aqui, não é a recusa desses recortes, mas a defesa de que eles não sejam o único lugar possível.

Crédito: Rebento Virgilio Libardi

Esse posicionamento ficou ainda mais evidente durante o III Simpósio Adultos no Espectro, realizado em 2025, no Rio de Janeiro. Diante de um público majoritariamente autista, Ilus percebeu o impacto de ressignificar no palco gestos, vocalidades, estereotipias e ecolalias frequentemente associados a visões reducionistas e estigmatizadas sobre o autismo. Ao transformar essas expressões em linguagem artística, a artista propõe outro olhar: mais humano, mais sensível e mais potente.

A obra de Ilus nasce, assim, de uma recusa: a de aceitar enquadramentos estreitos sobre o que um corpo pode ser, o que uma artista pode criar e onde ela pode estar. Mas nasce também de uma afirmação profunda: a de que pessoas autistas, PCDs e não binárias não devem ser reduzidas a narrativas de limitação. Há beleza, poesia, complexidade e criação nesses corpos e nessas experiências.

Ao insistir em circular por diferentes palcos e linguagens, Ilus consolida uma presença artística que não pede autorização para existir. Constrói, por conta própria, o espaço que muitas vezes lhe foi negado. E faz dessa construção um gesto de permanência, liberdade e invenção na cena cultural brasileira.

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