Autor de “1968 – O Ano que Não Terminou” e “Cidade Partida”, jornalista construiu trajetória de mais de seis décadas e ocupava a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras
O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Um dos nomes de referência do jornalismo brasileiro, ele construiu uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à reportagem, à literatura e à reflexão sobre momentos decisivos da história recente do país. Segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), Ventura morreu em casa, em decorrência de uma pneumonia.
Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, Zuenir Carlos Ventura exerceu diferentes atividades antes de consolidar a carreira na imprensa. Trabalhou como pintor, office-boy e arquivista e também foi professor universitário. Formado em Letras Neolatinas, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Sua trajetória no jornalismo começou em 1956. Ao longo das décadas seguintes, passou por importantes veículos da imprensa brasileira, exercendo funções de repórter, editor, chefe de reportagem, diretor de redação e colunista. Entre os veículos nos quais trabalhou estão Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Globo, O Cruzeiro, Visão e Veja.
Um livro que marcou a memória de 1968
Entre suas obras mais conhecidas está “1968 – O Ano que Não Terminou”, livro-reportagem que se tornou referência para a compreensão das transformações políticas, sociais e culturais daquele período no Brasil.
A obra também serviu de inspiração para o autor Gilberto Braga na criação da minissérie “Anos Rebeldes”, exibida pela TV Globo em 1992.
A relação de Zuenir com aquele período ultrapassava a atividade de observador e repórter. Após a edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, ele chegou a ser preso durante a ditadura militar enquanto trabalhava na revista Visão.
Chico Mendes e o jornalismo de reportagem
Outro capítulo marcante da carreira ocorreu após o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em 1988. Zuenir viajou ao Acre para acompanhar o caso e produziu uma série de reportagens sobre o crime e suas consequências.
O trabalho recebeu importantes reconhecimentos do jornalismo brasileiro, entre eles os prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.
Posteriormente, aquela experiência também chegaria aos livros em “Chico Mendes: Crime e Castigo”.
“Cidade Partida” e o retrato da violência urbana
Zuenir voltou sua atenção para a desigualdade e a violência urbana em “Cidade Partida”, publicado após uma longa experiência de reportagem em Vigário Geral, no Rio de Janeiro.
O trabalho teve como ponto de partida a chacina ocorrida na comunidade em 1993, quando 21 pessoas foram mortas.
Ao acompanhar de perto o cotidiano da região, o jornalista construiu uma narrativa sobre as divisões sociais do Rio de Janeiro e as relações entre violência, cidadania e desigualdade.
Em 1995, “Cidade Partida” conquistou o segundo lugar do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem, reconhecimento registrado no histórico oficial da premiação.
De repórter a imortal da Academia Brasileira de Letras
Além desses títulos, Zuenir publicou obras como “1968: O que Fizemos de Nós” e “Sagrada Família”, mantendo ao longo da carreira uma produção que transitava entre memória, reportagem, crônica e literatura.
Em 30 de outubro de 2014, foi eleito para a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015, recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli.
Ao longo de mais de seis décadas, Zuenir Ventura acompanhou e registrou transformações profundas da sociedade brasileira. Sua obra aproximou a investigação jornalística da narrativa literária e deixou como legado livros que permanecem como referências para compreender diferentes momentos da história do Brasil.
Em nota de pesar, o Ministério da Cultura (MinC) manifestou solidariedade aos familiares, amigos, colegas de profissão e leitores do jornalista.
A Academia Brasileira de Letras informou que o corpo de Zuenir Ventura será velado nesta quarta-feira (23), na sede da instituição, no Rio de Janeiro, e posteriormente sepultado no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.















