Em entrevista a Marcelo Tas, escritor revisita histórias curiosas de uma amizade de décadas, relembra os tempos de censura na ditadura militar e revela por que considera Chico Buarque uma das pessoas mais engraçadas que conhece. Programa vai ao ar nesta terça-feira (10), às 22h30, na TV Cultura.
TV Cultura renova contrato de Marcelo Tas no Provoca
Chico Buarque com novo romance em setembro – Expresso
6
Quem conhece Chico Buarque apenas pela sofisticação de suas canções, pelos romances premiados e pela imagem de artista reservado talvez se surpreenda com as histórias que Mario Prata tem para contar. Amigo de longa data do compositor, o escritor garante que existe um Chico muito diferente daquele que o público costuma imaginar: irreverente, imprevisível e dono de um humor extraordinário.
É esse lado pouco conhecido de um dos maiores nomes da cultura brasileira que ganha destaque na próxima edição do Provoca, apresentada por Marcelo Tas. A entrevista está anunciada para terça-feira, 10 de novembro de 2026, às 22h30, na TV Cultura.
Durante a conversa, Mario Prata antecipa detalhes de seu livro sobre Chico Buarque, recupera episódios de uma amizade marcada por situações inusitadas e revisita sua própria trajetória como dramaturgo, cronista e autor de televisão.
O programa também abre espaço para memórias de um período sombrio da história brasileira: os anos de censura durante a ditadura militar, quando escritores e artistas precisavam encontrar maneiras criativas de contornar a vigilância do regime.
O Chico Buarque que quase ninguém conhece
Um dos momentos mais interessantes da entrevista é a descrição que Mario Prata faz da personalidade do amigo.
Ao comentar o projeto de seu novo livro, ele afirma que pretende apresentar uma faceta pouco explorada do compositor: a de um homem extremamente bem-humorado, capaz de surpreender até mesmo as pessoas mais próximas com suas brincadeiras.
“O Chico é completamente louco. É talvez a pessoa mais engraçada que eu conheço”, afirma Mario Prata.
A declaração contrasta com a imagem pública frequentemente associada ao autor de Construção, Apesar de Você e Budapeste.
Segundo Prata, o humor de Chico nem sempre é imediato. Muitas vezes, suas brincadeiras são tão sutis que levam alguns instantes para serem compreendidas. É justamente essa inteligência irreverente que o escritor deseja registrar em seu livro.
Mais do que recuperar episódios engraçados, a obra promete apresentar um retrato pessoal de Chico Buarque, construído a partir da convivência e da cumplicidade entre dois importantes personagens da cultura brasileira.
Julinho da Adelaide: quando Chico Buarque enganou a censura
Chico Buarque e Julinho Adelaide: A “entrevista e o porre” | Outras Palavras
Entre os episódios relembrados está a célebre entrevista de Chico Buarque sob a identidade de Julinho da Adelaide, personagem inventado para driblar a censura durante a ditadura militar.
Na década de 1970, o compositor viu diversas canções enfrentarem restrições das autoridades, muitas vezes pelo simples fato de levarem seu nome.
Para contornar a perseguição, Chico criou um compositor fictício, Julinho da Adelaide, a quem atribuiu músicas como Acorda, Amor, Jorge Maravilha e Milagre Brasileiro.
O personagem ganhou uma história própria e chegou a conceder uma entrevista ao jornal Última Hora, publicada em 7 de setembro de 1974. O responsável pela conversa era justamente Mario Prata.
A entrevista foi construída de forma tão engenhosa que ajudou a alimentar a existência fictícia de Julinho, em uma mistura de sátira, resistência cultural e criatividade.
O episódio permanece como um exemplo singular das estratégias encontradas por artistas brasileiros para enfrentar a repressão política sem abandonar a produção artística. Folha+1
A mãe de Chico Buarque e o diploma de arquitetura
Nem todas as histórias contadas por Mario Prata envolvem política ou censura.
O escritor também recupera episódios familiares, como a insistência de Maria Amélia Buarque de Hollanda, mãe de Chico, para que o filho concluísse a faculdade de arquitetura.
Antes de consolidar sua carreira musical, Chico chegou a estudar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), mas acabou seguindo outro caminho profissional.
Na entrevista, Prata utiliza essa lembrança para revelar o lado mais cotidiano do artista, longe dos palcos e das homenagens.
São histórias que ajudam a humanizar figuras consagradas, mostrando que, por trás de trajetórias extraordinárias, existem relações familiares, escolhas difíceis e situações bastante comuns.
Mario Prata relembra a censura em ‘Estúpido Cupido’
A trajetória de Mario Prata também ocupa um lugar central na conversa com Marcelo Tas.
O escritor recorda sua entrada na TV Globo na década de 1970 e os bastidores de Estúpido Cupido, novela exibida em 1976 e considerada um marco de sua carreira como autor de televisão.
Prata conta que conseguiu inserir discretamente nomes ligados à cúpula política da época na sinopse da novela, sem despertar a atenção imediata dos censores.
O episódio revela uma característica recorrente de seu trabalho: a capacidade de utilizar o humor e a ironia para comentar a realidade política e social.
Mas a vigilância imposta pelo regime teve consequências concretas. Segundo ele, aproximadamente 300 das três mil páginas escritas para a novela foram censuradas.
Isso representava cerca de 10% do material produzido, uma dimensão expressiva da interferência exercida pelo Estado sobre a criação artística.
As lembranças ajudam a compreender como a censura não afetava apenas discursos políticos explícitos. Ela também alcançava histórias de ficção, personagens, diálogos e situações aparentemente cotidianas.
Do teatro à televisão: uma trajetória marcada pela irreverência
Além da experiência na televisão, Mario Prata revisita seu início no teatro, em 1968, período marcado por intensa transformação cultural e pela radicalização da repressão política no Brasil.
Ao longo de sua carreira, o escritor transitou entre literatura, dramaturgia, roteiros televisivos e crônicas, construindo uma linguagem reconhecida pelo humor, pela observação do cotidiano e pelos diálogos ágeis.
Essa versatilidade ajuda a explicar a riqueza das histórias compartilhadas no Provoca. Seu repertório reúne experiências de diferentes momentos da produção cultural brasileira, envolvendo personagens, bastidores e acontecimentos que ultrapassam as fronteiras entre televisão, teatro, música e literatura.
Ao revisitar essas memórias, Prata não apresenta apenas lembranças pessoais. Ele também oferece um testemunho sobre como a cultura brasileira se desenvolveu em meio a restrições, transformações sociais e disputas pela liberdade de expressão.
Entre memórias, amizade e liberdade de criação
A entrevista conduzida por Marcelo Tas aproxima dois universos complementares: o humor de uma amizade construída ao longo de décadas e a memória de um país que precisou aprender a resistir à censura.
Há também uma questão que atravessa toda a conversa: o poder da criatividade diante das dificuldades.
Se Chico Buarque inventou Julinho da Adelaide para escapar do controle exercido sobre suas músicas, Mario Prata encontrou na ironia e na inteligência narrativa maneiras de preservar sua voz como escritor.
Décadas depois, essas experiências continuam relevantes, especialmente quando se discute liberdade artística, memória histórica e o papel da cultura na sociedade.
O novo livro sobre Chico Buarque surge, portanto, como mais uma oportunidade de conhecer a dimensão humana de um artista frequentemente observado pelo peso de sua obra.
E, pelas histórias antecipadas no programa, o personagem que Mario Prata pretende revelar pode ser tão surpreendente quanto o próprio Julinho da Adelaide.
Serviço | Mario Prata no ‘Provoca’
TV Cultura renova contrato de Marcelo Tas no Provoca
Provoca — Entrevista com Mario Prata
Entrevistador: Marcelo Tas
Convidado: Mario Prata
Data prevista
Terça, 10/11/2026
Horário
22h30
Emissora
TV Cultura
Apresentação
Marcelo Tas
A entrevista pode ser acompanhada na TV Cultura. Consulte também o site oficial do Provoca para vídeos e informações sobre o programa.
Crédito das imagens: Divulgação.















