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Laura Cardoso morre aos 98 anos e deixa oito décadas de história na dramaturgia brasileira

19/08/2026
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Pioneira da televisão, atriz construiu uma das carreiras mais longevas da cultura brasileira, passando pelo rádio, teatro, circo e cinema e deixando personagens marcantes para diferentes gerações.

Laura Cardoso, um dos nomes fundamentais da dramaturgia brasileira, morreu na noite de segunda-feira, 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, em São Paulo. A morte, por causas naturais, foi comunicada pela família nas redes sociais da atriz.

Com uma trajetória de aproximadamente oito décadas, Laura esteve presente em praticamente todas as grandes transformações dos meios de comunicação no Brasil. Começou quando o rádio ainda reinava absoluto, participou dos primeiros anos da televisão e permaneceu em atividade artística até a velhice, tornando-se referência de disciplina, longevidade e dedicação ao ofício.

Do rádio aos primeiros anos da televisão

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, a atriz era filha de imigrantes portugueses e passou parte da infância no Bixiga, região central da capital paulista.

O interesse pela interpretação surgiu cedo. Ainda adolescente, Laura começou a trabalhar na Rádio Cosmos, participando de programas de auditório, produções humorísticas e radionovelas. A experiência diante dos microfones foi determinante para sua formação artística, especialmente no domínio da voz, da pausa e do ritmo dramático.

Na década de 1950, quando a televisão brasileira começava a dar seus primeiros passos, Laura integrou o elenco da TV Tupi. Sua estreia na emissora ocorreu em 1952, e ela se tornaria presença constante nos teleteatros apresentados ao vivo, quando não havia espaço para cortes, correções ou segundas tomadas.

Era uma televisão ainda em construção — e Laura Cardoso estava entre os artistas que ajudavam a descobrir, na prática, como interpretar para aquele novo meio.

Uma carreira que acompanhou a evolução das novelas

Com a consolidação das telenovelas, Laura atravessou emissoras, formatos e gerações de autores, diretores e atores. Na Globo, onde estreou em “Brilhante”, em 1981, construiu parte importante de sua extensa galeria de personagens.

Ao longo da carreira televisiva, participou de dezenas de novelas e produções, chegando a mais de 60 telenovelas segundo retrospectivas publicadas após sua morte.

Entre os trabalhos que permaneceram na memória do público estão “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Explode Coração”, “Caminho das Índias”, “Gabriela”, “Sol Nascente” e “O Outro Lado do Paraíso”.

Em Mulheres de Areia, de 1993, viveu Isaura. No ano seguinte, esteve em A Viagem. Já em Sol Nascente, exibida entre 2016 e 2017, surpreendeu como a vilã Dona Sinhá, mostrando que personagens de idade avançada também poderiam ocupar lugares de poder e antagonismo nas novelas.

Sua última telenovela foi “A Dona do Pedaço”, de 2019, na qual interpretou Matilde.

O teatro como fundamento

Apesar da enorme popularidade conquistada na televisão, Laura Cardoso nunca tratou o teatro como um capítulo secundário de sua história.

Nos palcos, trabalhou com nomes importantes da cena brasileira e recebeu reconhecimento por interpretações de grande intensidade. Entre seus trabalhos de destaque estão Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, de Carlos Alberto Soffredini, e Vereda da Salvação, de Jorge Andrade.

Sua maneira de encarar a profissão estava ligada menos à ideia de celebridade e mais ao trabalho cotidiano do ator. Laura defendia o respeito ao texto, ao autor e à construção do personagem.

Essa postura ajuda a explicar uma carreira marcada pela capacidade de desaparecer dentro dos papéis — fossem eles mães sofridas, figuras populares, mulheres autoritárias, religiosas ou vilãs.

Laura Cardoso também deixou sua marca no cinema

O cinema foi outra vertente importante de sua produção artística.

Laura participou de mais de 30 produções e esteve em filmes relevantes da cinematografia brasileira, entre eles “Terra Estrangeira”, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, e “Através da Janela”, de Tata Amaral.

Seu trabalho no cinema também lhe rendeu prêmios e homenagens. Ao longo da carreira, recebeu reconhecimentos como o Grande Otelo, prêmios APCA, Shell, a Ordem do Mérito Cultural e o Troféu Oscarito pelo conjunto de sua obra.

Mesmo após deixar as novelas, continuou artisticamente ativa. Em 2025, protagonizou o curta-metragem “Dona Rosinha”, dirigido por KK Araújo, sobre uma mulher idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus.

Trabalho até os últimos anos

A palavra aposentadoria parecia ter pouco espaço no vocabulário artístico de Laura Cardoso.

Sua relação com a profissão era marcada pela ideia de que o ator deveria estar a serviço da obra e do personagem, sem transformar a própria vaidade no centro da cena.

Talvez esteja justamente aí uma das razões de sua longevidade.

Laura atravessou a radionovela, o teleteatro ao vivo, a consolidação das grandes redes de televisão, a era das superproduções das novelas e a chegada do audiovisual às novas plataformas.

Não apenas assistiu à história da dramaturgia brasileira passar diante dos olhos. Ela fez parte dessa história.

A morte de Laura Cardoso encerra uma das trajetórias mais extensas da cultura brasileira, mas deixa uma obra capaz de permanecer presente a cada reprise, filme, registro teatral ou descoberta de uma nova geração de espectadores.

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