“Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos” abre em 2 de julho, no Museu Nacional da República, com entrada gratuita e reflexão sobre deficiência, pertencimento e capacitismo
A artista visual, sambadeira de roda e pesquisadora indígena Lua Kixelô Cavalcante, do povo Kixelô Kariri, do Ceará, apresenta em Brasília sua segunda exposição individual: “Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos”. A mostra abre no dia 2 de julho de 2026, das 18h30 às 22h, com coquetel aberto ao público, no Museu Nacional da República.
Com curadoria de Gisele Lima e Likidah Mazindandú, a exposição segue em cartaz de 3 de julho a 30 de agosto de 2026, de terça a domingo, das 9h às 18h30. A entrada é gratuita.
Partindo de sua vivência como pessoa com deficiência física, Lua constrói uma obra que atravessa memória, espiritualidade popular, crítica institucional e fabulação política. A artista se define como um corpo-artístico-político-pedagógico e propõe uma pergunta central: quem tem o direito de acessar, circular e pertencer?
Acessibilidade como linguagem e direito
Em “Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos”, a acessibilidade não aparece como recurso complementar. Ela é o ponto de partida, a linguagem e a própria estrutura da exposição. A mostra investiga como o capacitismo organiza espaços, instituições e relações sociais, criando barreiras que muitas vezes são tratadas como naturais.
A mensagem é direta: a deficiência não está nos corpos, mas nas barreiras que impedem a participação plena de pessoas com deficiência na vida social, cultural e política.
Mais do que falar sobre corpos com deficiência, a exposição fala sobre um mundo construído a partir de uma ideia limitada de normalidade. Ao deslocar a deficiência do lugar da ausência, da superação ou da excepcionalidade, Lua a aproxima da produção de conhecimento, da crítica social e da criação estética.
Uma inversão nas lógicas de circulação
O núcleo central da exposição é a instalação “Sala de Promessas”, que propõe uma experiência incomum no circuito artístico brasileiro. Nela, pessoas com deficiência podem acessar integralmente o ambiente, enquanto visitantes sem deficiência encontram restrições de circulação e precisam observar parte da obra por frestas e aberturas.
A proposta não busca reproduzir exclusão, mas tornar visível uma experiência cotidiana: a negociação permanente com espaços que não foram pensados para todos os corpos.
Com esse gesto, Lua transforma a acessibilidade em experiência estética, espacial e política. O público é convidado a perceber privilégios que, muitas vezes, permanecem invisíveis quando o acesso parece garantido.
Ex-votos para o fim do capacitismo
A exposição também tem forte dimensão coletiva. A “Sala de Promessas” reúne objetos doados por pessoas com deficiência, artistas e não artistas, que formam um conjunto de ex-votos contemporâneos.
Próteses, muletas, cadeiras de rodas, andadores, fotografias, documentos, terços, bilhetes e objetos afetivos tornam-se testemunhos materiais de experiências frequentemente invisibilizadas.
Tradicionalmente ligados ao agradecimento por uma graça alcançada, os ex-votos são deslocados por Lua de seu sentido religioso original. Aqui, eles não celebram curas nem milagres. Apontam para aquilo que ainda falta: um mundo acessível.
A artista define esses objetos como “ex-votos para o fim do capacitismo”. São oferendas não para transformar os corpos, mas para transformar as estruturas sociais.
A mostra apresenta ainda a série “Mandinga de Aleijadu”, formada por textos autorais impressos sobre tecidos, atravessados por bordados e costuras. Entre manifesto, oração, feitiço e poema, as obras ampliam o vocabulário político e sensível da exposição.
Também integram a mostra trabalhos inéditos em colaboração com a artista Isabel Se Oh, autora da escultura “Serenidade Amniótica”, e com Mestre Din Alves, responsável pelo grande ex-voto em madeira “Perna-Sonho”.
Programação paralela
Durante o período de visitação, a exposição contará com visita mediada com a artista e a curadoria, oficinas abertas ao público, visitas escolares e lançamento de catálogo. As datas das atividades serão divulgadas posteriormente nas redes sociais da mostra e do Museu Nacional da República.
Sobre a curadoria
Gisele Lima é bacharela em Teoria Crítica e História da Arte pela Universidade de Brasília e mestranda pela PUC-SP. Gestora da plataforma A Pilastra, desenvolveu o conceito de galeria-escola. Foi residente do Pivô SP em 2024, cocuradora das mostras “Ilhó” e “Triangular”, além de curadora convidada da 14ª Bienal de Curitiba. Também coordenou a produção da exposição “Terra Concreto”, vencedora do Prêmio IAB DF 2025, e foi palestrante do TEDx Brasília em 2025.
Likidah Mazindandú é artista, pesquisador e professor, graduado em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília, especialista em Cultura e Educação pela FLACSO Brasil e em História da África. Integra o Black Speculative Arts Movement e atua como professor da Secretaria de Educação do DF. Desde 2018, trabalha como arte-educador, curador e mediador cultural em exposições no Distrito Federal.
Serviço
Exposição: Muído em Aleijo ou Aleijo em Miúdos
Artista: Lua Kixelô Cavalcante
Curadoria: Gisele Lima e Likidah Mazindandú
Local: Museu Nacional da República
Abertura: 2 de julho de 2026, quinta-feira, das 18h30 às 22h
Visitação: de 3 de julho a 30 de agosto de 2026
Horário: terça a domingo, das 9h às 18h30
Entrada: gratuita














