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O fascismo de todo dia… quando o cinema acende a luz

11/02/2026
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Há filmes que encaram o fascismo como máquina de Estado: a engrenagem oficial, legalizada, que normaliza o medo, militariza a vida e transforma gente em estatística. E há outros que enxergam o fascismo como hábito social, uma pedagogia miúda — o gesto autoritário na sala de aula, a vigilância doméstica, o desejo de pertencer a um “nós” que exige um “eles” para existir. Entre um polo e outro, o cinema volta ao tema porque ele nunca fica só no passado: ele reaparece, muda de roupa e tenta se passar por senso comum.

O conformista (1970), também de Bernardo Bertolucci (Crédito: Divulgação)

A seguir, uma lista de filmes que atravessam essas duas camadas — o regime e o cotidiano, a instituição e o microcomando — e que seguem atuais justamente por mostrarem como a violência pode ser, ao mesmo tempo, grandiosa e banal.


A onda (2008), de Dennis Gansel

A Onda (2008), de Dennis Gansel (disponível na Netflix) (crédito: Divulgação)

Se existe um filme que explica como o autoritarismo pode parecer “organização”, é este. Um professor propõe um experimento em sala para demonstrar como regimes fascistas se formam — e, em poucos dias, o que era aula vira identidade, senha, hierarquia, culto ao grupo. O mais perturbador não é a explosão final: é o percurso. O filme entende que o fascismo não se apresenta como monstro; ele se vende como pertencimento, eficiência, disciplina — e seduz justamente por isso.


O espírito da colmeia (1973), de Víctor Erice

Filhos da esperança (2007), de Alfonso Cuarón (disponível para aluguel na AppleTV e em Blu-ray pela Colecione Clássicos) (Crédito: divulgação)

Aqui, a ditadura não entra por decretos, mas por clima. Num vilarejo espanhol pós-Guerra Civil, uma menina assiste a Frankenstein e passa a procurar, no mundo real, a criatura que o filme prometeu. A fantasia infantil vira lente para enxergar um país em silêncio forçado, onde o “outro” é sempre suspeito e onde a imaginação tenta respirar sob o peso do medo. Erice transforma a opressão numa paisagem emocional: a ditadura como poeira no ar.


Filhos da esperança (2007), de Alfonso Cuarón

Filhos da esperança (2007), de Alfonso Cuarón (disponível para aluguel na AppleTV e em Blu-ray pela Colecione Clássicos)  (Crédito: Divulgação)

Num futuro em que crianças deixaram de nascer, a Inglaterra se converte em Estado policial, fronteira armada, documento, jaula. A distopia funciona porque lembra coisas demais: perseguição a imigrantes, militarização cotidiana, burocracias violentas. A jornada de Theo para proteger uma mulher grávida (a exceção que ameaça a ordem) é menos “aventura” e mais denúncia — com um mundo filmado como se a história estivesse sempre prestes a desabar.


Aleluia, Gretchen (1976), de Sylvio Back

Aleluia, Gretchen (1976), de Sylvio Bach  (Crédito: divulgação)

O horror, aqui, não vem de fora — ele cria raízes no quintal. Uma família alemã compra um hotel no interior do Paraná, e o lugar vira ponto de encontro para simpatizantes do nazismo. O filme expõe como ideologias de extermínio podem se instalar no cotidiano por meio de rituais, símbolos, músicas, sociabilidade. E faz isso num contexto em que o próprio Brasil vivia censura e autoritarismo — o que dá ao longa um duplo desconforto: ele fala do nazismo e, ao mesmo tempo, do presente em que foi feito.


O conformista (1970), de Bernardo Bertolucci

Cena de O conformista (1970), de Bernardo Bertolucci. Imagem: Divulgação

Bertolucci mira o fascismo onde ele é mais escorregadio: no desejo de normalidade. Marcelo quer se encaixar. Quer parecer correto. Quer ser “como os outros”. E é dessa fome de pertencimento que nasce sua adesão ao regime — até ser recrutado para uma missão de assassinato político. A história revela um fascismo íntimo, feito de culpa, medo e conveniência, onde a violência ganha verniz de dever. Tudo em volta é elegante, calculado, sedutor — e essa beleza é parte da crítica.


Imagem: Divulgação

A estratégia da aranha (1970), de Bernardo Bertolucci

Em vez de acompanhar o fascismo em ação, o filme acompanha o que vem depois: a fabricação do mito. Um homem retorna à cidade natal para entender a morte do pai, celebrado como herói antifascista. Só que a memória pública é um labirinto: versões, encenações, pactos silenciosos. Bertolucci usa um ponto de partida borgeano para perguntar algo incômodo: quando um país precisa de heróis, até que ponto ele topa mentir para si mesmo? E que tipo de política nasce dessas mentiras bem contadas?

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