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Aprovado tombamento provisório da vila pioneira do Paranoá

26/11/2022
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A proteção dos bens no entorno da Igreja de São Geraldo, incluindo vestígios de mais de duas dezenas de edificações, é uma demanda de mais de 40 anos da comunidade

Agência Brasília* | Edição: Claudio Fernandes

 

A antiga Vila Paranoá, acampamento original dos pioneiros que levantaram barragem criando o lago de mesmo nome para a capital federal a partir de 1957, recebeu o tombamento provisório das edificações remanescentes do povoado em torno da Igreja de São Geraldo. A igreja é tombada desde 1993, mas a proteção dos bens do entorno é uma demanda de mais de 40 anos da comunidade, já na terceira geração.

“O tombamento provisório gera maior segurança para a preservação desse legado e vai nos ajudar a fazer justiça à memória da caminhada das pessoas que tornaram o lugar rico em belezas naturais e construções, convivência e produções culturais, um dos marcos dessa cidade que tanto deve aos pioneiros”Aquiles Brayner, subsecretário de Patrimônio Cultural da Secec

O parecer pela proteção do patrimônio histórico, que sobreviveu à ação do tempo e a demolições, foi dado pela Comissão Permanente de Análise e Avaliação de Registro e Tombamento Cultural (Cpaart), vinculada à Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec).

O documento, oficializado pelo despacho do secretário Bartolomeu Rodrigues, inclui os remanescentes do assentamento, tanto os construídos quanto os naturais, assim “como as formas de apropriação da área como lugar de manutenção e valorização de memórias e relações afetivas ainda existentes entre antigos moradores e o sítio” – traz o texto.

“O Paranoá é uma região rica em história e cultura. O tombamento provisório gera maior segurança para a preservação desse legado e vai nos ajudar a fazer justiça à memória da caminhada das pessoas que tornaram o lugar rico em belezas naturais e construções, convivência e produções culturais, um dos marcos dessa cidade que tanto deve aos pioneiros”, destaca o subsecretário de Patrimônio Cultural da Secec, Aquiles Brayner.

Estrutura remanescente do edifício do Corpo de Bombeiros da Vila Paranoá | Fotos: Acervo pessoal Gersion de Castro

Os vestígios de mais de duas dezenas de edificações que passam a ser protegidas incluem antigas escolas, postos de saúde, de bombeiros, delegacia, sede da Legião Brasileira de Assistência (LBA), bairros, ruas, áreas verdes e espaços de socialização que testemunharam e constituem lembranças de pertencimento à comunidade. Alguns deles, já demolidos, podem hoje ser apenas sinalizados, mas juntos formam um valioso marco de referência cultural, que se concentram no que é hoje a área do Parque Vivencial do Paranoá, criado em 1994.

Um dos documentos que embasaram a aprovação do tombamento provisório dos remanescentes da Vila é o trabalho de conclusão da especialização em Educação e Patrimônio Cultural e Artístico feita pelo servidor da Secec Gersion de Castro Silva, na Universidade de Brasília (UnB), intitulado A história de uma cidade invisível: Vila Paranoá e seus quintais de memórias (2019).

Servidor da Secec, Gersion de Castro Silva fez trabalho de conclusão da especialização em Educação e Patrimônio Cultural que embasou a aprovação do tombamento provisório

A dissertação resgata documentos sobre a histórica local, traça o caminho que levou da construção dos primeiros barracões à formação do patrimônio material e imaterial e propõe anotações sobre a iconografia e as vozes não ouvidas por quem é de fora do lugar.

Técnico em atividades culturais, Gersion comemora a boa notícia. Descendente de pioneiros da Vila Paranoá e militante da causa de preservação do patrimônio cultural material e imaterial presentes no local, ele explica que agora a tarefa é elaborar um dossiê para obter a inscrição definitiva nos Livros do Tombo, onde são listados os bens que passam a contar com a proteção do Estado, vedando problemas como graves alterações nos imóveis ou novas demolições.

Gersion, que é um dos idealizadores do Museu Vivo da Memória da Vila Paranoá (MVMVP), também é escritor e artista plástico e parte de sua produção inclui quadros que misturam reconstituição histórica e poética do acampamento, com seus antigos equipamentos em paleta vibrante de cores, dentro da chamada arte naïf brasileira, tão espontânea e instintiva.

O antigo posto de saúde da Vila Paranoá é uma das construções que receberam tombamento provisório

História e preservação

A antiga Vila Paranoá tem histórias para contar que não encontram muito espaço nos registros historiográficos oficiais de Brasília. O documentário Batalhas pelo Patrimônio, Batalhas pela História, produzido em 1999 pelo professor José Walter Nunes, da Universidade de São Paulo (USP), preenche algumas dessas lacunas.

O filme, disponível na internet, se destaca pela coleta de depoimentos orais para costurar a narrativa, com o objetivo de ampliar a noção de patrimônio histórico-cultural, passando a incluir os laços sociais, afetivos e identitários dos protagonistas nos movimentos históricos vividos e também reforçar o vínculo entre patrimônio e memória.

Na obra, que registra acontecimentos do início da década de 1980, o depoimento da pioneira Maria da Guia de Souza atesta o sentimento de violência psicológica nas tentativas de desocupação feitas por policiais militares. “A sensação é que não passavam os tratores só por cima das casas, mas também sobre todo o passado de luta da gente, sobre nossa história”, registra o depoimento gravado no documentário.

Como resultado da luta, que foi seguida por greves de fome e manifestações na Esplanada dos Ministérios em plena vigência da ditadura militar, o governador do DF à época, José Aparecido de Oliveira, assinou decreto pela fixação dos pioneiros na área, em agosto de 1988. No entanto, na realidade, os antigos ocupantes acabaram cedendo e se movendo para local próximo, no que é hoje a RA7, o novo Paranoá.

Tombamento definitivo

A servidora Rayane Cristina Chagas Silva, atual presidente da Cpaart, explica que a matéria do tombamento dos remanescentes da Vila Paranoá segue agora para avaliação do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do Distrito Federal (Condepac), que delibera sobre o tombamento definitivo.

O órgão colegiado, com funções deliberativas, consultivas, fiscalizadoras e normativas, tem composição paritária entre o poder público e a sociedade civil. “O coletivo com 24 participantes vai se reunir quando tiver os instrumentos que aprofundam o estudo sobre o bem cultural, basicamente um inventário com dossiê e plano de preservação e salvaguarda”, explica Rayane.

*Com informações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa

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