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Na era da inteligência artificial, “O Bosque Selvagem” aposta no trabalho artesanal e impressiona com animação feita à mão

28/10/2026
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Dos mesmos criadores de “Coraline”, novo filme do estúdio Laika estreia em 29 de outubro nos cinemas brasileiros, com mais de 140 mil rostos produzidos para os personagens e participação de profissionais brasileiros.

Em um momento em que a inteligência artificial transforma a produção de imagens e animações, um dos estúdios mais reconhecidos do cinema decide seguir por um caminho diferente: construir personagens, cenários e movimentos com as próprias mãos.

É essa a proposta de “O Bosque Selvagem” (Wildwood), nova animação em stop-motion do estúdio Laika, responsável por filmes como “Coraline e o Mundo Secreto” e “Kubo e as Cordas Mágicas”. Dirigido por Travis Knight, o longa estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 29 de outubro de 2026, trazendo uma aventura fantástica marcada pela riqueza visual e pelo trabalho minucioso de centenas de profissionais.

Inspirado no livro de Colin Meloy, vocalista da banda The Decemberists, o filme acompanha uma adolescente que atravessa uma floresta misteriosa para resgatar o irmão mais novo.

Mas a história que acontece nos bastidores é quase tão extraordinária quanto aquela apresentada nas telas.

Uma aventura fantástica entre coragem e criaturas misteriosas

A protagonista é Prue McKeel, uma adolescente determinada que vê sua rotina mudar completamente quando seu irmão caçula, Mac, é sequestrado por um bando de corvos.

Tomada pela culpa e pela vontade de encontrá-lo, Prue decide entrar em uma floresta cercada por mistérios, localizada nos arredores de Portland, no estado americano do Oregon.

Ela conta com a companhia de Curtis, um colega de escola inseguro, mas leal, que acaba se tornando seu principal aliado na jornada.

No caminho, a dupla encontra animais falantes, personagens fantásticos e figuras envolvidas em conflitos que misturam poder, ambição e perda.

Entre os obstáculos está Alexandra, personagem marcada pela dor de ter perdido um filho, cujo sofrimento se transforma em uma força destrutiva.

A aventura combina elementos de fantasia sombria com reflexões sobre amadurecimento, amizade, responsabilidade e os vínculos familiares.

Mais de 140 mil rostos para dar vida aos personagens

O que torna “O Bosque Selvagem” especialmente singular é sua dimensão técnica.

Diferentemente de uma animação produzida integralmente por computador, o stop-motion utiliza bonecos e cenários físicos fotografados quadro a quadro. A cada pequena mudança na posição dos personagens, uma nova imagem é registrada.

Quando as fotografias são exibidas em sequência, surge a ilusão de movimento.

Para realizar o longa, a equipe da Laika produziu 223 bonecos, 132 cenários físicos, 728 árvores artesanais e mais de 142 mil faces intercambiáveis para reproduzir as expressões dos personagens.

O processo é tão detalhado que elementos como cabelos, roupas, mãos e até pálpebras precisam ser ajustados pelos animadores.

Em uma sequência convencional de 24 quadros por segundo, cada segundo de ação pode exigir até 24 ajustes sucessivos.

O trabalho envolve escultores, fabricantes de bonecos, figurinistas, especialistas em iluminação, animadores e profissionais de efeitos visuais.

Embora conte com recursos digitais na finalização, a produção preserva o movimento de bonecos físicos como elemento central de sua linguagem.

Uma águia gigante entre os maiores desafios da produção

Uma das personagens visualmente mais impressionantes do filme é uma enorme águia conhecida como General, que transporta Prue durante parte da aventura.

Seu boneco, com quase um metro de comprimento, exigiu aproximadamente um ano de trabalho.

A complexidade envolveu a construção da estrutura, a reprodução das penas e o desenvolvimento de mecanismos capazes de permitir movimentos expressivos.

Para Brad Schiff, chefe de animação do estúdio, a ave representou um dos desafios mais trabalhosos de sua carreira.

O resultado demonstra o grau de precisão necessário para conferir personalidade e movimento a objetos que, fora das telas, permanecem imóveis.

Talento brasileiro nos bastidores da Laika

“O Bosque Selvagem” também conta com participação brasileira.

O animador mineiro Thiago Calçado trabalhou nas sequências envolvendo cavalos, alguns dos personagens mais complexos de animar devido à movimentação das quatro patas e à dinâmica das cenas de ação.

O profissional já havia participado de produções como “Minhocas”, lançado em 2013, e “Pinóquio por Guillermo del Toro”, de 2022.

Outro brasileiro envolvido na produção é Marcelo Amp, que atuou na criação de componentes de silicone utilizados nos bonecos.

A participação dos dois destaca a presença de profissionais brasileiros em diferentes etapas da produção internacional de animação.

O trabalho exige uma combinação de conhecimento técnico, sensibilidade artística e paciência. Em sequências especialmente complexas, um animador pode levar uma semana para produzir poucos segundos de filme.

Portland também ganha vida na animação

A cidade de Portland, onde se passa a história original, exerce papel importante na identidade visual da produção.

A equipe recriou ruas, espaços urbanos e paisagens naturais inspirados no estado do Oregon, onde está localizada a sede da Laika.

As grandes árvores e florestas do noroeste dos Estados Unidos serviram de referência para a criação do universo fantástico.

Essa relação com a cidade também aparece no livro “Wildwood”, publicado em 2011 e ilustrado por Carson Ellis.

Ao adaptar a obra, a equipe buscou preservar a atmosfera misteriosa da região, transformando sua natureza em parte essencial da narrativa.

O valor do trabalho humano na era da IA

A estreia de “O Bosque Selvagem” acontece em meio a debates sobre a utilização de inteligência artificial generativa nas indústrias criativas.

Nesse cenário, a produção chama atenção pela valorização de técnicas artesanais e pela dimensão coletiva do processo artístico.

Isso não significa que a Laika tenha abandonado a tecnologia digital. O estúdio combina fabricação física, impressão 3D, ferramentas computacionais e efeitos visuais para alcançar resultados cada vez mais sofisticados.

A diferença está na maneira como esses recursos são utilizados: a tecnologia trabalha em diálogo com os artistas, sem substituir a construção física e a animação quadro a quadro.

Com isso, “O Bosque Selvagem” demonstra que inovação e tradição podem conviver dentro de uma mesma obra.

O legado do estúdio de “Coraline”

Fundado em 2005, o estúdio Laika construiu uma identidade reconhecível no cinema de animação, especialmente pela combinação entre fantasia, personagens complexos e elaboração visual.

Seu primeiro longa, “Coraline e o Mundo Secreto”, de 2009, tornou-se uma referência do stop-motion contemporâneo.

Depois vieram “ParaNorman” (2012), “Os Boxtrolls” (2014), “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016) e “Link Perdido” (2019).

Todos os cinco filmes receberam indicações ao Oscar de Melhor Animação, consolidando a reputação do estúdio.

Com “O Bosque Selvagem”, a Laika apresenta seu projeto mais ambicioso em escala até agora.

Em uma indústria frequentemente orientada pela velocidade e pela automação, o filme reafirma o valor de criar mundos imaginários com materiais concretos, trabalho coletivo e atenção aos detalhes.

Uma aventura que, além de contar uma história de coragem, também celebra a criatividade humana.

Serviço — O Bosque Selvagem

Título original: Wildwood

Estreia nos cinemas brasileiros: 29 de outubro de 2026

Direção: Travis Knight

Roteiro: Chris Butler, baseado no livro de Colin Meloy

Estúdio: Laika

Distribuição no Brasil: Imagem Filmes

Gênero: animação, fantasia e aventura

Duração: aproximadamente 130 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

Vozes originais: Peyton Elizabeth Lee, Jacob Tremblay, Carey Mulligan, Mahershala Ali e Angela Bassett, entre outros.

Exibição: cinemas brasileiros, conforme programação de cada rede.

Fonte: reportagem de Mayara Paixão, publicada na Folha de S.Paulo em 27 de outubro de 2026, e informações de divulgação do filme.

Crédito da imagem: Divulgação/Laika Studios — Imagem Filmes.

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