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Juliana Galbetti leva instalação feita com resíduos de tiros a Veneza e convida público a caminhar sobre a violência

28/10/2026
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Finalista do Arte Laguna Prize 2026, artista brasileira apresenta “Era do Ruído”, obra de 16 m² que transforma cápsulas de munição e projéteis deformados em uma reflexão sobre memória, violência e paz.

E se os vestígios da violência contemporânea fossem encontrados por arqueólogos daqui a centenas de anos? O que diriam sobre a sociedade em que vivemos? Essas perguntas estão no centro de “Era do Ruído” (Age of Noise), instalação da artista brasileira Juliana Galbetti, que será apresentada em Veneza, na Itália, de 6 a 29 de novembro de 2026.

Selecionada para a 21ª edição do Arte Laguna Prize, uma das plataformas internacionais de incentivo à arte contemporânea, a artista transforma resíduos de disparos de armas de fogo em uma experiência que aproxima arqueologia, memória e reflexão social.

A obra integra a exposição dos finalistas das 20ª e 21ª edições do prêmio, no histórico Arsenale Nord, reunindo 240 artistas selecionados nas duas edições.

Uma instalação sobre a violência sob nossos pés

Com 16 metros quadrados, “Era do Ruído” reúne cápsulas de munição deflagradas, projéteis deformados e outros fragmentos recolhidos em locais de prática de tiro.

Organizados em vitrines horizontais com estruturas metálicas e vidro temperado, os objetos poderão ser observados de uma perspectiva incomum: o público será convidado a caminhar sobre as superfícies transparentes.

A disposição lembra um sítio arqueológico, mas apresenta uma diferença essencial. Os materiais não pertencem a uma civilização desaparecida. São vestígios de atividades que continuam acontecendo no presente.

“A apresentação em vitrines de chão caminháveis aproxima os fragmentos dos modos de exposição da arqueologia, mas aquilo que está sob nossos pés não pertence a uma civilização desaparecida. São vestígios de uma prática ainda em operação”, explica a artista.

A proposta desloca o olhar sobre objetos associados a disparos e transforma aquilo que seria descartado em matéria de observação e questionamento.

Arqueologia do futuro: o presente como vestígio

A instalação é resultado de uma pesquisa iniciada há cinco anos. Concebida para a 7ª Bienal do Sertão, realizada em Diamantina, Minas Gerais, em 2025, a obra ganhará uma versão ampliada para sua apresentação na Itália.

Durante o processo, Juliana reuniu em seu ateliê mais de 300 quilos de resíduos, entre estojos de munição, fragmentos metálicos, plásticos e materiais cerâmicos utilizados como alvos em práticas de tiro.

O trabalho envolve coleta, limpeza, classificação e organização dos objetos. A metodologia se aproxima da organização de acervos museológicos e permite observar diferenças de forma, composição e marcas de impacto.

Em diálogo com o arqueólogo Danilo Ribeiro Zardo, a artista investigou como esses materiais poderiam ser interpretados caso fossem encontrados em uma escavação futura.

A pergunta ultrapassa a função original dos objetos e alcança o comportamento coletivo: o que a quantidade e a repetição desses vestígios revelam sobre a sociedade que os produz?

Entre a beleza dos materiais e o desconforto da reflexão

Um dos aspectos mais provocativos da instalação está no contraste entre sua aparência visual e o significado dos objetos.

O brilho dos metais, a organização rigorosa e a transparência das vitrines podem despertar curiosidade e até admiração estética. Porém, a aproximação revela materiais relacionados a disparos de armas de fogo.

A artista utiliza esse contraste para questionar como atribuímos valor, significado e visibilidade aos objetos.

“Interessa-me quando aquilo que nos atrai também nos faz interrogar o que estamos vendo – e os critérios com que estamos olhando”, afirma Juliana.

A obra não pretende reproduzir cenas de violência. Sua proposta é investigar os vestígios materiais de uma prática e criar uma distância temporal que permita observar o presente como se já pertencesse à história.

Nesse percurso, a ideia de paz surge como uma possibilidade a ser construída.

“Estamos diante de um passado que ainda estamos produzindo”, observa a artista.

Brasileira entre finalistas de prêmio internacional

Natural de Joinville, Santa Catarina, e radicada em São Paulo, Juliana Galbetti foi selecionada entre mais de 3 mil inscrições internacionais para integrar o grupo de 120 finalistas da 21ª edição do Arte Laguna Prize.

A seleção foi realizada por um júri internacional que contou com o curador brasileiro Hélio Menezes, cocurador da 35ª Bienal de São Paulo, além de nomes como Yuko Hasegawa, Sarah Crowe, Wang Chunchen, Gianluigi Ricuperati, Linzi Stauvers e Jemima Kulumba.

A exposição em Veneza terá curadoria de Xiaoyu Weng e Jemima Kulumba e reunirá os finalistas das duas últimas edições do prêmio.

Fundado em 2006 pela Associação MoCA, o Arte Laguna Prize completa 20 anos em 2026, consolidando sua atuação na valorização e na circulação internacional de artistas contemporâneos.

A abertura da exposição coincide com as últimas semanas da Bienal de Veneza, período de intensa movimentação artística e cultural na cidade italiana.

Quem é Juliana Galbetti?

Nascida em 1976, Juliana Galbetti é formada em Moda pela Faculdade Santa Marcelina e iniciou sua trajetória nas artes visuais em 2018.

Sua produção transita entre instalação, escultura, desenho, fotografia, processos têxteis e práticas participativas.

A artista investiga como objetos, arquivos e sistemas de classificação influenciam a maneira como construímos memória, atribuímos valor e percebemos a realidade.

Em suas obras, ações como coletar, comparar, organizar e reorganizar materiais tornam-se procedimentos artísticos capazes de revelar significados que frequentemente passam despercebidos.

Com “Era do Ruído”, Juliana leva essa pesquisa a uma dimensão internacional, transformando fragmentos associados à violência em um convite para refletir sobre o futuro que estamos construindo.

Serviço — Juliana Galbetti no Arte Laguna Prize 2026

Exposição: Finalistas das 20ª e 21ª edições do Arte Laguna Prize

Artista: Juliana Galbetti

Obra: Era do Ruído (Age of Noise)

Período: 6 a 29 de novembro de 2026

Local: Arsenale Nord — Sestiere Castello, Veneza, Itália

Horário: diariamente, das 10h às 18h

Entrada: gratuita

Organização: MoCA APS — Modern and Contemporary Art

Informações: https://artelagunaprize.com/exhibition-2026/

Crédito da imagem: Divulgação/Juliana Galbetti.

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