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“Censura”: jogo de cartas transforma ditadura militar brasileira em desafio cooperativo

28/08/2026
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Linha fina: Projeto do Tijolo Estúdio e do História em Meia Hora percorre acontecimentos de 1964 a 1985, reúne personagens como Eunice Paiva e Vladimir Herzog e tem lançamento previsto para novembro.

Matéria editada

A história da ditadura militar brasileira vai chegar às mesas em um formato pouco convencional. “Censura”, novo jogo de cartas desenvolvido pelo Tijolo Estúdio em parceria com o História em Meia Hora, transforma acontecimentos ocorridos entre 1964 e 1985 em uma experiência cooperativa na qual os participantes precisam enfrentar decretos, cumprir missões e articular formas de resistência ao regime autoritário.

Em vez de competir uns contra os outros, os jogadores precisam atuar em conjunto. A proposta é organizar movimentos sociais, oposição política e manifestações culturais enquanto avançam por acontecimentos que marcaram os 21 anos da ditadura no Brasil. A página oficial descreve o projeto como um baralho de 45 cartas, dividido entre notícias, missões, personalidades e decretos militares.

O jogo está em campanha de financiamento coletivo, prevista para seguir até 15 de setembro, e o lançamento é esperado para novembro de 2026.

História entra na mecânica do jogo

“Censura” não utiliza o período histórico apenas como ambientação. Episódios da ditadura interferem diretamente nas possibilidades dos participantes.

Entre os acontecimentos abordados estão a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI), em 1964, o Ato Institucional nº 2, de 1965, e o AI-5, decretado em dezembro de 1968 e associado ao aprofundamento da repressão durante o regime.

As cartas também recuperam trajetórias de personagens ligados à resistência, à política, à cultura e à defesa dos direitos humanos. O material apresentado inclui nomes como Eunice Paiva, Vladimir Herzog, Leonel Brizola, Therezinha Zerbini, Ziraldo e Carlos Marighella.

A proposta é fazer com que os poderes dos personagens, as limitações impostas pela repressão e a necessidade de organização coletiva façam parte da própria experiência de jogar.

Segundo o Tijolo Estúdio, os participantes precisam “seguir a linha do tempo”, enfrentar decretos e articular ações para proteger a cultura e superar os desafios apresentados. O jogo permite partidas cooperativas com até quatro pessoas e conta com dois níveis de dificuldade.

Como falar de repressão sem transformar o tema em brincadeira?

Esse foi um dos desafios enfrentados pelos criadores durante o desenvolvimento do projeto.

O material que deu origem à pauta relata a preocupação da equipe em encontrar um equilíbrio entre didatismo, diversão e respeito à gravidade do período histórico, evitando tanto uma experiência excessivamente pedagógica quanto a banalização da violência e da repressão.

O historiador e comunicador Vitor Soares, do podcast História em Meia Hora, participou da seleção e revisão dos acontecimentos e personagens apresentados pelo jogo. A parceria já havia ocorrido em “Imperialismo: América”, projeto anterior do Tijolo Estúdio dedicado às relações entre Estados Unidos e América Latina durante a Guerra Fria.

A aproximação com professores também ajudou a impulsionar “Censura”. Segundo o conteúdo encaminhado ao CidadeCult, a ideia começou a tomar forma após contatos do estúdio com docentes do ensino médio interessados em jogos que pudessem dialogar com conteúdos históricos de maneira acessível.

Ziraldo, Henfil e Tropicalismo aparecem nas referências visuais

A identidade gráfica também busca estabelecer conexão com a cultura produzida durante e em torno daquele período.

O designer Max Duarte teve entre as referências trabalhos de Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil e Laerte. A estética do Tropicalismo também entrou no repertório visual, especialmente a linguagem gráfica ligada à produção cultural brasileira do fim dos anos 1960.

Essa combinação reforça uma característica que o Tijolo Estúdio apresenta como princípio de seus projetos: desenvolver jogos baseados em acontecimentos reais e capazes de estimular reflexão para além da partida.

Jogar para compreender escolhas coletivas

Em “Censura”, vencer não significa derrotar outro participante. Todos estão do mesmo lado da mesa e dependem da coordenação do grupo para avançar.

A escolha tem relação direta com o próprio tema: os jogadores precisam unir movimentos sociais, organizar oposição política, proteger manifestações culturais e administrar as restrições impostas pelo regime.

É nesse ponto que “Censura” procura ocupar um espaço cada vez mais explorado pelos jogos de tabuleiro contemporâneos: o de transformar acontecimentos históricos e sistemas políticos em mecânicas que não apenas contam uma história, mas fazem o jogador tomar decisões dentro dela.

Com previsão de chegada ao público em novembro, o projeto amplia também a discussão sobre o uso de jogos como ferramentas de aproximação entre memória, educação, cultura e entretenimento.

Serviço

Censura — A luta contra a ditadura
O que é: jogo cooperativo de cartas sobre a ditadura militar brasileira
Criação: Tijolo Estúdio e História em Meia Hora
Período histórico: 1964 a 1985
Baralho: 45 cartas, segundo a página oficial atual
Jogadores: cooperativo, para até quatro participantes
Financiamento coletivo: até 15 de setembro de 2026
Previsão de lançamento: novembro de 2026

Com informações da Folha de S.Paulo e do Tijolo Estúdio.

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