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MASP apresenta exposição de Sandra Gamarra Heshiki que revisita narrativas coloniais nas artes

11/03/2026
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O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand recebe a exposição Réplica, primeira grande panorâmica dedicada à artista peruana Sandra Gamarra Heshiki na instituição. A mostra propõe uma reflexão crítica sobre as narrativas que moldaram a história da arte nas Américas, questionando representações coloniais e a centralização cultural em países hegemônicos.

Por meio de pinturas que reproduzem e alteram imagens históricas — muitas delas relacionadas à colonização e à guerra — a artista investiga como a arte pode revelar as camadas ideológicas que moldaram a memória coletiva.

A exposição fica em cartaz no MASP até 7 de junho, reunindo obras que atravessam diferentes períodos históricos e dialogam com debates contemporâneos sobre identidade, colonialismo e circulação de imagens.


O museu fictício que virou obra de arte

Uma das ideias que marcaram a trajetória de Gamarra surgiu em 2002, quando ela criou o LiMac, um museu contemporâneo fictício em Lima.

O projeto nasceu da provocação: diante da ausência de instituições dedicadas à arte contemporânea na capital peruana, a artista decidiu inventar um museu que existia apenas em registros, imagens e exposições.

Sem sede física, o LiMac ganhou forma em galerias e bienais ao redor do mundo, muitas vezes reproduzindo ou reinterpretando obras de artistas consagrados — uma estratégia que expunha a concentração de legitimidade cultural em centros artísticos globais.

Na mostra do MASP, essa lógica aparece em uma sala onde pinturas reproduzem as próprias obras expostas, enquanto panfletos transformam parte delas em lembranças que podem ser levadas pelos visitantes.


Reproduzir para questionar

A reprodução é uma estratégia central no trabalho de Gamarra. Ao recriar pinturas históricas e registros coloniais, a artista desloca essas imagens de seu contexto original e abre espaço para novas interpretações.

Muitas obras revisitam quadros ligados ao imperialismo nas Américas, além de imagens de conflitos e de populações encarceradas. Ao reencenar essas representações em pintura, Gamarra evidencia as hierarquias e narrativas que essas imagens ajudaram a consolidar.

Segundo a artista, até tecnologias atuais, como sistemas de inteligência artificial, podem reforçar essas narrativas dominantes ao reproduzir padrões presentes na internet.

“Imagens generativas camuflam discursos interessados em resgatar um mundo de polarização extrema”, afirma.


Arte pré-colonial e objetos deslocados

Um dos núcleos da exposição aborda artefatos indígenas e pré-coloniais. Em vitrines, aparecem pinturas que representam vasos e cerâmicas de povos dos Andes e da Amazônia — objetos que hoje fazem parte de coleções europeias.

‘Recurso VII’ (2019), obra de Sandra Gamarra Heshiki, em cartaz na exposição ‘Réplica’, no Masp – Divulgação

A artista chama atenção para o fato de que muitas dessas peças, originalmente ligadas a práticas rituais e comunitárias, passaram a ser exibidas em museus científicos, afastadas do campo da arte.

Em algumas obras, Gamarra também insere no verso termos racistas historicamente associados a esses objetos, evidenciando a forma como discursos coloniais moldaram sua interpretação ao longo do tempo.


Revisões da história latino-americana

Outro eixo da exposição revisita pinturas históricas da América Latina. Obras como Habitante de Las Cordilleras del Peru, de Francisco Laso, e India del Collao, de José Sabogal, aparecem reinterpretadas.

Em uma das intervenções, a figura indígena retratada por Laso surge de cabeça para baixo, enquanto um objeto cerâmico ganha protagonismo na composição. Já na releitura da obra de Sabogal, o rosto da personagem é coberto por uma folha de ouro falso, questionando as representações construídas ao longo da história.

A exposição também aborda conflitos históricos, como a guerra entre Peru e Chile, por meio de pinturas sobrepostas por palavras e pigmentos vermelhos que evocam tanto violência quanto tradições visuais indígenas.


Modernismo e exclusão cultural

Na parte final da exposição, Gamarra dialoga com o modernismo e com artistas que marcaram a história da arte contemporânea, como Mark Rothko e Hélio Oiticica.

Ao parodiar ou reinterpretar elementos dessas linguagens, a artista aponta para a exclusão histórica de povos indígenas e latino-americanos da geopolítica cultural global.

Nesse espaço, imagens de guerra e retratos indígenas aparecem ocultos sob superfícies abstratas, sugerindo que muitas histórias permanecem invisíveis mesmo dentro dos museus.


Exposição questiona como aprendemos a olhar

Para os curadores da mostra, o trabalho de Gamarra questiona também o próprio papel do museu como espaço que organiza e ensina a forma como o público observa as obras.

Em algumas pinturas, mãos apontam para quadros abstratos, como se repetissem um gesto pedagógico comum: indicar o que deve ou não ser considerado arte.

Essa provocação acompanha toda a exposição e reforça uma pergunta central da artista: quem define as narrativas que moldam a história da arte?


Serviço

Exposição: Réplica
Artista: Sandra Gamarra Heshiki

📍 Local: Museu de Arte de São Paulo (MASP)
📍 Endereço: Avenida Paulista, 1578 – São Paulo

📅 Até: 7 de junho

🕒 Horários:
Terça: 10h às 20h
Quarta e quinta: 10h às 18h
Sexta: 10h às 21h
Sábado e domingo: 10h às 18h

🎟 Ingressos: R$ 85
🎟 Gratuito às terças-feiras

Classificação indicativa: 12 anos

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