{"id":5926,"date":"2024-07-12T11:13:04","date_gmt":"2024-07-12T14:13:04","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadecult.com.br\/?p=5926"},"modified":"2024-07-16T09:35:05","modified_gmt":"2024-07-16T12:35:05","slug":"cidadecult-entrevista-felipe-cdc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadecult.com.br\/?p=5926","title":{"rendered":"CidadeCult entrevista FELIPE CDC"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Fellipe CDC &#8211; O Rock feito por amor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Entrevista de Andr\u00e9 Bonif\u00e1cio<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A julgar pela quantidade de coisas que realiza, o dia dele parece ter o dobro de horas das outras pessoas. Talvez, o fato de ser graduado em Arquivologia d\u00ea alguma vantagem e ele consiga ganhar essas horas que nos faltam. Fellipe Jos\u00e9 Sales, ou \u201cCara de Cachorro\u201d, como \u00e9 conhecido no meio do rock independente, \u00e9 um incans\u00e1vel batalhador dentro do estilo. Com 53 anos, nasceu em Bras\u00edlia, trabalha no Tribunal de Justi\u00e7a do Distrito Federal e dos Territ\u00f3rios (TJDFT), \u00e9 pai da Ana Fl\u00e1via, marido da Rose, produz shows, faz zines (revistas xerocadas), tem programa de r\u00e1dio semanal, \u00e9 vocalista em tr\u00eas bandas, coleciona tudo relacionado ao desenho dos Simpsons, tem um museu do rock independente em casa e ainda \u00e9 mascate. Conhe\u00e7a essa lenda do rock independente brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fellipe, seja bem-vindo ao CidadeCult! \u00c9 um prazer receb\u00ea-lo aqui. Desde crian\u00e7a voc\u00ea j\u00e1 escutava rock? Como foi que voc\u00ea come\u00e7ou a se interessar pelo estilo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Obrigado pelo convite. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o do rock foi atrav\u00e9s da minha irm\u00e3, Marta, ela ouvia os rocks cl\u00e1ssicos, como Led Zeppelin e os Secos e Molhados. Eu devia ter uns 10 anos, mor\u00e1vamos no Cruzeiro nessa \u00e9poca. Al\u00e9m da influ\u00eancia da minha irm\u00e3, tinha um integrante da banda Sepultura (n\u00e3o a banda brasileira que ficou conhecida mundialmente) que morava na mesma rua. Como ensaiavam na casa dele, vez ou outra eu dava uma curiada e ficava ali, assistindo aos ensaios.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"313\" height=\"470\" src=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0725-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5928\" style=\"width:842px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0725-1.jpg 313w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0725-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 313px) 100vw, 313px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Qual foi a primeira banda que voc\u00ea assistiu ao vivo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira banda que assisti foi o Sepultura (de Bras\u00edlia), porque eu ia nos ensaios deles. Show de verdade, acho que foi o Mel da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E quando foi que voc\u00ea comprou o primeiro disco?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi o Black Sabbath &#8211; 4. Um cara me vendeu, porque queria tomar pinga. Da\u00ed, comprei e ele tomou a pinga (risos). Depois, vieram o AC\/DC &#8211; Back in Black e o Van Halen &#8211; 1984. Mas, esse \u00faltimo, me desfiz por radicalismo besta na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esse Van Halen foi meu primeiro disco de rock.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9, recentemente comprei o LP novamente, em bom estado de conserva\u00e7\u00e3o. Dei muita sorte.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A primeira demo dos Raimundos, eu que levei na Galeria do Rock em SP e entreguei ao Renato, que na \u00e9poca era empres\u00e1rio do Ratos de Por\u00e3o (banda paulista de hardcore), ele passou para o Jo\u00e3o Gordo (vocalista) e a fitinha rodou por l\u00e1.<\/p>\n<cite>Felipe CDC<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>E quando foi que voc\u00ea se tornou um cidad\u00e3o taguatinguense? Quando se mudou para l\u00e1, tinha uma cena roqueira na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tinha. Quando mudei para Taguatinga, em 83, comecei a frequentar shows das bandas dali. Tinha uma da Ceil\u00e2ndia, chamada Canal Livre, outra chamada Other Side, que era da QNL. Tamb\u00e9m tinha a Deuses Verdes. Era bem divertido. And\u00e1vamos naquela regi\u00e3o toda atr\u00e1s de shows, a p\u00e9. Eu tinha uns 14 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi nessa \u00e9poca que voc\u00ea come\u00e7ou a se corresponder com pessoas de outros estados por meio das cartas? Como come\u00e7ou isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso mesmo, por meio da revista Rock Brigade. Eles tinham uma se\u00e7\u00e3o chamada Headbangers Voice, que tinha aqueles an\u00fancios do tipo: \u201cquero me corresponder com pessoas que curtam banda tal\u201d. A\u00ed, enviei a primeira e n\u00e3o parei mais. Ali\u00e1s, tem um document\u00e1rio sobre a revista no YouTube, que trata dessa parte das cartas. \u00c9 cada hist\u00f3ria (risos)!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi da\u00ed que voc\u00ea come\u00e7ou a fazer os fanzines (revistas xerocadas) para divulgar as bandas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi. O primeiro contato que tive com zine foi por meio de um cara que fazia em Ribeir\u00e3o Pires (SP), o zine se chamava United Forces. Com o tempo, me tornei correspondente, mandando as novidades daqui do DF. Eu resenhava shows que tinha ido. Da\u00ed, conheci o Rold\u00e3o e, juntos, criamos o primeiro fanzine de metal na regi\u00e3o, chamado Metal Blood.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E como foi trocar de lado? Sair dos bastidores e subir nos palcos, com uma banda?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira banda que montei durou apenas quatro ensaios. A proposta era fazer algo meio death metal, isso em 1988. Depois, veio o HCS, que chegou at\u00e9 a fazer shows, mas tamb\u00e9m n\u00e3o vingou. Tenho foto de uma apresenta\u00e7\u00e3o de 1989 guardada em algum lugar naquele quartinho (se referindo ao quarto na sua casa, que \u00e9 um verdadeiro museu do underground, com cartazes de shows, fotos e cartas). Da\u00ed, em 1990, montei o Death Slam, que est\u00e1 na ativa at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"678\" src=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0726-1024x678.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5929\" srcset=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0726-1024x678.jpg 1024w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0726-300x199.jpg 300w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0726-768x508.jpg 768w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0726-750x496.jpg 750w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0726-1140x754.jpg 1140w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0726.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A Death Slam foi a sua primeira banda que conseguiu gravar uma fita demo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, a primeira banda que gravou foi o Death Slam. Foi gravada em 24 canais, no est\u00fadio Zen, em fevereiro de 1993. O HCS tamb\u00e9m chegou a gravar, mas eu j\u00e1 n\u00e3o estava na banda nessa \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E o Terror Revolucion\u00e1rio? Como foi montado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o Terror, foi assim: eu ia na RVC (loja de discos no Conic) deixar fanzines e cartazes de shows e o Barbosa (atual guitarrista) trabalhava l\u00e1. Da\u00ed, um dia ele me chamou pra montar uma banda. Ele trouxe o \u201chomem palco\u201d (uma figura carism\u00e1tica que ficava agachada, em cima dos palcos, para que pessoas subissem em suas costas e se jogassem em cima do p\u00fablico) e eu trouxe o Jefferson. Lembro do primeiro ensaio: Jefferson e eu est\u00e1vamos na parada de \u00f4nibus, ali no centro de Taguatinga, esperando o Barbosa e o homem palco chegarem (eles vinham do Plano Piloto). Quando desceram do \u00f4nibus, Barbosa estava com uma guitarra rosa, dessas bem vagabundas, sem capa. As duas figuras eram bem estranhas. O Jeffer ficou um pouco incr\u00e9dulo, mas nesse primeiro ensaio, que durou duas horas, j\u00e1 sa\u00edram sete m\u00fasicas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por quais outras bandas voc\u00ea passou antes de formar o Death Slam e o Terror Revolucion\u00e1rio (uma de suas bandas atuais)?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bom, tive uma banda com a Adriana (baixista do Terror Revolucion\u00e1rio), a Teratogenia, que ainda contava com o Daniel (baterista dos Os Cabeloduro) e o Djalma. Com essa banda, gravamos no C\u00e1ustico Lunar (que ficava ali no Conic) e soltamos uma fitinha com outras tr\u00eas bandas, duas de cada lado. O show de lan\u00e7amento era para arrecadar fundos para a Casa do Caminho (lar que cuida de crian\u00e7as em Taguatinga), mas acabamos dando preju\u00edzo, o p\u00fablico quebrou algumas coisas no local.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea acha que se tiv\u00e9ssemos uma m\u00eddia a n\u00edvel nacional, como existe no Sudeste, outras bandas poderiam ter se destacado no cen\u00e1rio nacional?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com certeza, muitas bandas ficaram escondidas aqui, porque n\u00e3o tinham como serem vistas e nem espa\u00e7o para divulgar o som. O Distrito Federal sempre teve v\u00e1rias bandas boas, inclusive, melhores que muitas bandas de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro (n\u00e3o que isso seja uma competi\u00e7\u00e3o), mas muitas bandas daqui desanimaram e acabaram sem lan\u00e7ar nada. Se tivessem mais apoio nessa \u00e1rea, acho que teriam sa\u00eddo at\u00e9 para o mainstream. Mas o rock no Brasil \u00e9 isso. Como diz o jornalista Marcos Pinheiro: \u201cquem est\u00e1 no rock \u00e9 para se fod\u2026\u201d (risos).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"639\" src=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0727.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5930\" srcset=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0727.jpg 960w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0727-300x200.jpg 300w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0727-768x511.jpg 768w, https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/IMG_0727-750x499.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>E como aconteceu a turn\u00ea na Europa com o Terror Revolucion\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns amigos que j\u00e1 tinham tocado por l\u00e1 falavam pra gente ir, mas n\u00e3o entend\u00edamos bem o que fazer para isso acontecer. Ent\u00e3o, o Lauro, um amigo que j\u00e1 tinha feito turn\u00ea com sua banda por l\u00e1, pilhou e escreveu um projeto para a gente. Enviamos para o Fundo de Apoio \u00e0 Cultura e conseguimos parte do dinheiro que precis\u00e1vamos. O Barbosa conseguiu fechar a maioria das datas dos shows e tamb\u00e9m a nossa participa\u00e7\u00e3o no Obscene Fest (festival da Rep\u00fablica Tcheca, considerado um dos maiores de m\u00fasica pesada do mundo). V\u00e1rios amigos, que j\u00e1 tinham tocado no Obscene, fizeram lobby para a gente conseguir ser selecionado, acabou dando certo! Fora o festival, fizemos outros 13 shows em 17 dias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E fora da Europa, quais foram os outros pa\u00edses em que voc\u00eas j\u00e1 tocaram?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tocamos na Argentina, Chile e M\u00e9xico. Eu queria muito tocar no Paraguai, temos amizades fortes por l\u00e1. Seria realizar um sonho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi dessa viagem para o M\u00e9xico que rendeu o lan\u00e7amento de voc\u00eas por l\u00e1?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o Barbosa conheceu, em um dos shows, um cara que tinha um selo e eles mantiveram contato ap\u00f3s voltarmos para Bras\u00edlia. Da\u00ed, conseguimos um esquema massa de soltar um dos nossos CDs em K7. Sei l\u00e1 o porqu\u00ea, mas o povo gostou da gente. Vai entender (risos).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E voc\u00eas t\u00eam planos de voltar ao M\u00e9xico, agora que tiveram o K7 lan\u00e7ado por l\u00e1?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quase fomos ao M\u00e9xico novamente, mas a pandemia quebrou nossas pernas (risos). \u00cdamos tocar num grande festival. Tamb\u00e9m queremos ir para a Europa em 2025, por\u00e9m, precisamos conciliar as f\u00e9rias de trabalho dos quatro integrantes. Ainda n\u00e3o sentamos pra definir<\/p>\n\n\n\n<p>. A gente quer tocar em pa\u00edses que n\u00e3o tocamos da outra vez. Sei l\u00e1, conhecer novos lugares e novas cenas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cantar em portugu\u00eas atrapalha um pouco a carreira internacional?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma barreira, n\u00e9. Porque a banda \u00e9 pequena. Se f\u00f4ssemos uma banda maior, talvez n\u00e3o atrapalhasse tanto. Mas n\u00e3o mudaremos. Cantar em portugu\u00eas \u00e9 a nossa cara.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea e o Gabriel Thomaz (ex-Little Quail e Autoramas) s\u00e3o \u201cacusados\u201d de serem os maiores distribuidores de fitas da \u00e9poca, voc\u00ea ainda faz isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pior que sim, at\u00e9 hoje levo materiais de bandas do DF, CDs, EPs, divulgando links de bandas que est\u00e3o apenas nas plataformas digitais. Quando chego nas cidades, a primeira coisa que fa\u00e7o \u00e9 procurar lojas e shows para distribuir. Quando fomos para a turn\u00ea na Europa, levei uma mala s\u00f3 com material das bandas. No M\u00e9xico, fui parado no aeroporto e tive que me explicar, o agente perguntou porque eu estava levando tantos materiais repetidos, perguntou se era para vender. Um outro policial aliviou, dizendo que entendia que era apenas para divulga\u00e7\u00e3o, sem fins lucrativos e tal. A primeira demo dos Raimundos, eu que levei na Galeria do Rock em SP e entreguei ao Renato, que na \u00e9poca era empres\u00e1rio do Ratos de Por\u00e3o (banda paulista de hardcore), ele passou para o Jo\u00e3o Gordo (vocalista) e a fitinha rodou por l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E voc\u00ea acha que a cena do rock no DF est\u00e1 se renovando? Tem uma galera nova chegando ou o rock morreu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 renovando sim. Tem uma molecada chegando forte. Sempre que estou ensaiando no est\u00fadio vejo uma molecada nova fazendo rock autoral. Nos shows, tamb\u00e9m tenho observado essa renova\u00e7\u00e3o, caras novas aparecendo a cada fim de semana. Acho que este \u00e9 o grande triunfo: enquanto existir um jovem escutando, o rock vai estar l\u00e1. \u00c9 muito diferente de outros estilos. O rock \u00e9 feito por amor. \u00c9 a prova de que o amor eterno existe (risos).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aproveitando que estamos falando sobre gera\u00e7\u00f5es, qual \u00e9 o futuro da m\u00fasica no quesito de distribui\u00e7\u00e3o e modo de ouvir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o, tenho muito medo do que vai acontecer. Eu sou um cara um pouco avesso a algumas tecnologias, n\u00e3o tenho redes sociais, ainda me comunico por e-mail e liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas. Sou quase anal\u00f3gico. Mas vejo muitas pessoas usando essas plataformas de m\u00fasica. As bandas que eu toco est\u00e3o l\u00e1 (os outros integrantes colocam). At\u00e9 pouco tempo, eu tinha uma radiola daquelas de m\u00f3vel, que ocupava quase a sala inteira. Realmente n\u00e3o sei o que vai acontecer no futuro da m\u00fasica, cara. Acho que vai chegar uma hora em que voc\u00ea vai ter um chip e j\u00e1 sair\u00e1 ouvindo um show.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E como voc\u00ea se atualiza para descobrir novas bandas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu escuto muita coisa nova no YouTube, l\u00e1 que descubro bandas pra tocar no Zine-se (programa semanal de r\u00e1dio que ele apresenta). Antes, os caras mandavam o material f\u00edsico. Hoje, \u00e9 s\u00f3 um link para a gente escutar. Eu acho que essa coisa da tecnologia tira um pouco o lado humano do processo, sabe. Essa semana, uma banda me mandou material f\u00edsico (CD, camiseta) com uma carta escrita \u00e0 m\u00e3o, fiquei at\u00e9 emocionado. Hoje, os moleques j\u00e1 nascem com essa coisa das redes. Gravam no quarto e soltam a m\u00fasica, em quest\u00e3o de segundos, numa plataforma para o mundo inteiro ouvir. Com meus 53 anos, n\u00e3o \u00e9 nem pregui\u00e7a, talvez eu n\u00e3o queira aceitar esse rumo que as coisas est\u00e3o tomando, sabe. \u00c9 tudo imediato, tudo tem que ser pra j\u00e1. A m\u00fasica tem que ser mais curta, porque as pessoas n\u00e3o t\u00eam tempo de ouvir uma com maior dura\u00e7\u00e3o. \u00c9 tudo pra ontem. At\u00e9 os programas de entrevistas j\u00e1 v\u00eam todos picotados no YouTube, para voc\u00ea ver apenas as partes mais interessantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aproveitando que voc\u00ea falou de programa de r\u00e1dio, como surgiu essa ideia de ser radialista?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu sempre quis fazer r\u00e1dio. \u00c9 legal para as pessoas conhecerem bandas diferentes. A maioria das m\u00fasicas que tocamos no programa s\u00e3o de bandas independentes. Buscamos mostrar as que n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o nas grandes r\u00e1dios. Nos anos 90, apresentei um projeto na r\u00e1dio Cultura, mas ele n\u00e3o foi aprovado. Eu tenho essa vontade faz muito tempo. A ideia surgiu dos tr\u00eas gurus que tenho aqui em Bras\u00edlia: Marcos Pinheiro, Alexandre Podr\u00e3o e o Lelo Nirvana (tr\u00eas figuras pioneiras na apresenta\u00e7\u00e3o de programas de rock independente). Foi no programa desses caras, nos anos 90, que tocou os sons do Death Slam pela primeira vez. Ahhh, n\u00e3o posso esquecer do Paulo C\u00e9sar Casc\u00e3o, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ent\u00e3o, o Zine-se \u00e9 o seu primeiro programa de r\u00e1dio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, esse foi o primeiro. O Boreu (tatuador) foi quem fez a ponte. Ele chegou para o pessoal da R\u00e1dio 4 Tempos e falou que sentia falta de um programa que tocasse sons feitos aqui na cidade. Da\u00ed, me p\u00f4s em contato com os donos da r\u00e1dio. O Armando e a Patr\u00edcia toparam na hora, mas eu disse a eles que n\u00e3o conseguia fazer o programa sozinho, j\u00e1 que n\u00e3o lido bem com tecnologia e precisava operar os equipamentos. Chamei um amigo de longa data, o F\u00e1bio Frajola (vocalista da banda Seconds of Noise), para me ajudar nessa divertida tarefa. Ele aceitou e j\u00e1 estamos h\u00e1 oito anos com o programa, tocando bandas desde as mais famosas \u00e0s independentes. Durante a pandemia, o programa passou a ser reprisado na r\u00e1dio Cultura. Depois, uma r\u00e1dio de S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m come\u00e7ou a reprisar. Fora isso, soltamos a parte das entrevistas no YouTube, numa parceria com o est\u00fadio Mercearia, que nos cedeu o espa\u00e7o para as grava\u00e7\u00f5es do programa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Falando em rock independente, voc\u00ea tamb\u00e9m tem o selo Independ\u00eancia Records, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o selo Independ\u00eancia Records come\u00e7ou como uma cooperativa. As bandas se juntavam, dividiam o espa\u00e7o no CD e cada uma pagava sua parte. Depois, a gente rachava, em partes iguais, a prensagem entre as bandas e cada uma vendia os CDs. Isso era uma forma de mostrar que n\u00e3o precisavam esperar por uma gravadora grande para soltar seu material. Com o tempo, come\u00e7amos a lan\u00e7ar bandas solo. Saiu primeiro o CD da Death Slam, com 53 m\u00fasicas (isso mesmo, n\u00e3o \u00e9 erro de digita\u00e7\u00e3o), depois teve o vinil do Facada (banda de Fortaleza). Ao todo, umas 80 bandas sa\u00edram pelo selo, entre colet\u00e2neas e solos. Hoje, o selo tamb\u00e9m \u00e9 uma editora. Recentemente, soltamos o livro \u201c86 Hist\u00f3rias do Underground\u201d. Esse livro conta hist\u00f3rias de bastidores do rock underground brasileiro. Estamos prestes a soltar a parte dois, que cont\u00e9m outras 86 in\u00e9ditas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E por que 86 hist\u00f3rias? \u00c9 um n\u00famero cabal\u00edstico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o (risos), \u00e9 porque consideramos 1986 como o ano que sa\u00edram os discos mais legais de rock no mundo e no Brasil. \u00c9 uma refer\u00eancia a isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E como foi que voc\u00ea se tornou produtor de shows? Como come\u00e7ou o festival Headbangers Attack?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira produ\u00e7\u00e3o foi em 1990, eu tinha montado a Death Slam. Quer\u00edamos tocar e ningu\u00e9m dava espa\u00e7o. Ent\u00e3o, produzimos o nosso show. De forma bem prec\u00e1ria, com p\u00e9ssimos equipamentos, mas era o que t\u00ednhamos \u00e0 m\u00e3o. Depois, fomos melhorando, alugando equipamentos de qualidade. Ent\u00e3o, em 1993, fiz o primeiro festival Headbangers Attack. De l\u00e1 para c\u00e1, s\u00f3 paramos na pandemia. Voltamos em 2023 e estamos na 19\u00aa edi\u00e7\u00e3o do festival. Uma curiosidade \u00e9 que nunca repetimos bandas. Cerca de 200 bandas independentes j\u00e1 passaram por ele. Fora o Headbangers, produzo junto com o M\u00e1rcio (vocalista da banda Os Maltrapilhos) o festival \u201cVomitando a Ceia\u201d, que acontece todo ano na semana do Natal. A entrada desse evento \u00e9 um brinquedo e, tudo o que arrecadamos, doamos \u00e0s crian\u00e7as de institui\u00e7\u00f5es aqui no DF, uma coisa meio papai noel do rock. Al\u00e9m desses dois, ainda produzo o Terror Fest e o Slam Noise Fest.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 uns dez anos voc\u00ea montou outra banda, n\u00e9. Como surgiu o Caligo? \u00c9 bem diferente das outras bandas que voc\u00ea faz. \u00c9 um som mais sombrio e lento. Como aconteceu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, o Sandro (da banda Into The Dust) me convidou para fazer os vocais. Boa parte das letras s\u00e3o poesias do Augusto dos Anjos. Ele tem muito a ver com a atmosfera do doom (estilo musical da banda), mais sombrio, saca. Eu n\u00e3o tenho capacidade para escrever letras extensas e po\u00e9ticas assim (risos).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aproveitando que voc\u00ea tocou no assunto, como \u00e9 o processo das suas letras? Como voc\u00ea define o que vai para cada uma das tr\u00eas bandas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O processo de cria\u00e7\u00e3o do Terror Revolucion\u00e1rio e do Death Slam s\u00e3o mais parecidos, s\u00e3o letras de protesto. S\u00e3o sobre coisas que nos indignam. As coisas mais cotidianas v\u00e3o pro Terror, as coisas mais anti status quo, assuntos mais globais, v\u00e3o para Death Slam. O Caligo, s\u00e3o os temas voltados para a morte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>J\u00e1 que falou em indigna\u00e7\u00e3o, o que te indigna dentro do rock?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Boa pergunta, me indigna o conservadorismo dentro do rock. Tem banda de black metal (estilo de metal que renega o cristianismo)<\/p>\n\n\n\n<p>fazendo letras em homenagem ao Bolsonaro. P\u00f4, uma banda teoricamente anti-religi\u00e3o defendendo um lixo que tem como lema \u201cDeus acima de tudo&#8221;. Compreende a contradi\u00e7\u00e3o? N\u00e3o podia se misturar nunca. O rock deveria ser o contr\u00e1rio disso. Sou da escola do protesto e da subvers\u00e3o dos valores conservadores. Desde o in\u00edcio, o rock \u00e9 contestador, \u00e9 subversivo. O blues j\u00e1 contestava a escravid\u00e3o. \u00c9 voc\u00ea n\u00e3o entender as origens, cara. \u00c9 contra a ess\u00eancia do rock. Hoje, voc\u00ea v\u00ea bandas punks conservadoras. Isso \u00e9 muito escroto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea deve ter se decepcionado com v\u00e1rios artistas ultimamente, n\u00e9? Como faz? Deixa de escutar? Cancela?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 um problema, algumas bandas eu consigo ouvir. \u00c9 o caso do Cream, por exemplo. P\u00f4, o Eric Clapton era um cara foda, de repente, virou um idiota, quando o assunto \u00e9 pol\u00edtica. O cara foi antivacina na \u00e9poca da pandemia. Mas gosto do som, tento n\u00e3o pensar muito nessa quest\u00e3o, compreende? O Slayer foi outra decep\u00e7\u00e3o, o Tom Araya (vocalista) apoiando o Trump foi dif\u00edcil. P\u00f4, o cara tem descend\u00eancia latina, vivendo nos Estados Unidos e apoiando o Trump, n\u00e3o consigo entender. Por\u00e9m, \u00e9 outra banda que n\u00e3o consegui parar de ouvir. Tento pensar s\u00f3 no som, que \u00e9 excelente, meio que esque\u00e7o quem est\u00e1 cantando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fellipe, j\u00e1 tomei muito do seu precioso tempo. Ali\u00e1s, nem sei onde consegue encontrar tempo para fazer tudo o que faz. Quero te agradecer pelo bate-papo e pelos servi\u00e7os prestados ao rock independente ao longo dessas d\u00e9cadas. Quer deixar uma mensagem para os nossos leitores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bom, eu que agrade\u00e7o o espa\u00e7o. A mensagem que quero deixar para a galera \u00e9: parem de se informar pelo WhatsApp e saiam um pouco das redes sociais. V\u00e3o ao cinema, assistam document\u00e1rios e filmes, leiam livros, conversem com as pessoas pessoalmente, olhem no olho. Descubram bandas independentes e n\u00e3o escutem s\u00f3 o que a TV e a internet querem que voc\u00ea escute. Acho que \u00e9 isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fellipe CDC &#8211; O Rock feito por amor Entrevista de Andr\u00e9 Bonif\u00e1cio A julgar pela quantidade de coisas que realiza, o dia dele parece ter o dobro de horas das outras pessoas. Talvez, o fato de ser graduado em Arquivologia d\u00ea alguma vantagem e ele consiga ganhar essas horas que nos faltam. 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