{"id":5162,"date":"2024-05-18T11:48:39","date_gmt":"2024-05-18T14:48:39","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadecult.com.br\/?p=5162"},"modified":"2024-05-18T12:27:35","modified_gmt":"2024-05-18T15:27:35","slug":"cronicas-de-um-dia-quase-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadecult.com.br\/?p=5162","title":{"rendered":"CR\u00d4NICAS DE UM DIA (QUASE) NORMAL"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\"wp-block-preformatted\"><em> Beltides Rocha<\/em><\/pre>\n\n\n\n<p>J\u00e1 era quase meio-dia quando bateu aquela fome. <\/p>\n\n\n\n<p>Eu pensei em ir a um restaurante habitual, que era perto, mas n\u00e3o o suficiente para ir a p\u00e9, da\u00ed peguei o carro e fui. <\/p>\n\n\n\n<p>No caminho, tinha um campo de golfe e vi, de longe, tr\u00eas pessoas dando suas tacadas. <\/p>\n\n\n\n<p>Na hora, pensei se um dia eu viria a jogar golfe, esporte que nunca tinha praticado, exceto de brincadeirinha, com aqueles apetrechos infantis que todo mundo um dia j\u00e1 experimentou. <\/p>\n\n\n\n<p>Esse caminho at\u00e9 o restaurante era de pouco tr\u00e2nsito e, n\u00e3o raro, era poss\u00edvel estar na via sozinho. <\/p>\n\n\n\n<p>Um sonho. <\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia est\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil ficar sozinho em uma via de tr\u00e2nsito de cidade grande&#8230; Ali, naquele momento, era como se a pista fosse somente para mim. <\/p>\n\n\n\n<p>Um dia ouvi de uma pessoa que queria dirigir sempre sozinho na pista e, como isso n\u00e3o era poss\u00edvel, n\u00e3o gostava de dirigir. <\/p>\n\n\n\n<p>Nessa via de sonho em que eu estava, qualquer carro \u00e0 frente ou atr\u00e1s de si pode, por ele mesmo, chamar a aten\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>E assim, indo \u00e0 frente, percebi um vermelho no retrovisor interno do carro e reparei que o carro que vinha atr\u00e1s, al\u00e9m de vir muito r\u00e1pido, tinha curvas bem definidas, t\u00edpicas de um esportivo de perfil baixo, com uma entrada de ar no meio do seu cap\u00f4. <\/p>\n\n\n\n<p>Na hora pensei, uma Ferrari? <\/p>\n\n\n\n<p>O carro n\u00e3o chegou a me ultrapassar, mas chegou perto o suficiente para ver no retrovisor que parecia sim uma Ferrari, mas ela diminuiu a velocidade para entrar no tal clube de golfe que eu tinha visto antes.<\/p>\n\n\n\n<p> Isso fez mudar o meu destino. <\/p>\n\n\n\n<p>Vislumbrei na hora de ir l\u00e1 tamb\u00e9m para me informar sobre como jogar golfe e, ainda por cima, conferir de perto a tal Ferrari.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, dei meia-volta e fui para l\u00e1. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar no estacionamento, vi que o tal carro vermelho era mesmo uma Ferrari e pensei ser o modelo 599GT (depois verifiquei que era do modelo Calif\u00f3rnia). <\/p>\n\n\n\n<p>O nome Calif\u00f3rnia, do estado americano, por si s\u00f3 j\u00e1 remete a pensamentos long\u00ednquos, de liberdade, poder e gl\u00f3ria. Culpa dos filmes americanos de Hollywood que vendem essa ideia. <\/p>\n\n\n\n<p>Ah, Calif\u00f3rnia, que j\u00e1 inspirou tanta coisa&#8230; cinema, moda, estilo e m\u00fasicas, como aquela antiga, dos anos 70, da banda Eagles, que falava do tal Hotel Calif\u00f3rnia, que tudo era lindo antes de entrar, mas depois que entrou nele n\u00e3o podia mais sair&#8230; e aquele solo de guitarras&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>Esse carro, cujo pre\u00e7o para um modelo 0 km no Brasil somente n\u00e3o \u00e9 proibitivo para muito poucos brasileiros (algo de mais de um milh\u00e3o de d\u00f3lares norte-americanos), era um modelo com motor V8 dianteiro, mas com tra\u00e7\u00e3o dianteira, de 4.3 litros e 560 cv (755 Nm &#8211; Newtons Metro). A transmiss\u00e3o \u00e9 de dupla embreagem, com sete marchas. O principal destaque desse modelo Calif\u00f3rnia \u00e9 a capota retr\u00e1til, que li na internet depois que abre ou fecha em 14 segundos. <\/p>\n\n\n\n<p>Parei meu carro bem pr\u00f3ximo daquela Ferrari e pude ouvir o ronco encantador de um possante motor V8. <\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo era m\u00fasica. <\/p>\n\n\n\n<p>O condutor daquela Ferrari tinha estacionado, mas ficou ali, acelerando-o, talvez assustado com a minha chegada abrupta. <\/p>\n\n\n\n<p>Virando para o lado, olhei melhor o campo de golfe e descobri que ali funcionava tamb\u00e9m um restaurante. Considerando que o meu objetivo inicial era mesmo almo\u00e7ar, resolvi ficar por ali mesmo. <\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00ed do meu carro j\u00e1 satisfeito por ter sentido uma adrenalina adquirida pelas percep\u00e7\u00f5es visuais e auditivas. <\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, esquecendo a hist\u00f3ria do golfe, afinal o que eu queria mesmo era saciar a minha fome, fui ao restaurante dali e sentei \u00e0 mesa l\u00e1 dentro, em uma posi\u00e7\u00e3o que me dava a vis\u00e3o da Ferrari Calif\u00f3rnia estacionada l\u00e1 fora. <\/p>\n\n\n\n<p>O dono daquela Ferrari veio depois e sentou-se logo \u00e0 minha frente: um homem na casa dos 65 anos, mas vestido como se fosse um garot\u00e3o de 20, falando ao celular supostamente com um amigo e contando que tinha conhecido uma mulher jovem e que tinha gostado dela. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o demorou muito e avistei de longe, em trajet\u00f3ria at\u00e9 aquela mesa do dono da Ferrari, uma bel\u00edssima jovem, mulher, magra, de cabelos loiros compridos, lis\u00edssimos, bem vestida, com uma blusa de cor laranja t\u00e3o colada no corpo que delineava de modo perfeito seus belos seios m\u00e9dios. Pois, do alto de seus 1,75 metros, andar daquele jeito dava-nos a impress\u00e3o de que estava ali a desfilar aos olhos dos presentes e, qui\u00e7\u00e1, fosse uma princesa de algum reino t\u00e3o distante, mas sabedora do que queria fazer. <\/p>\n\n\n\n<p>Todos no restaurante estavam ali hipnotizados com o que viam. <\/p>\n\n\n\n<p>Ela chegou \u00e0 mesa do dono da Ferrari, deu-lhe logo um beijo na boca e sentou-se com ele. <\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o casal conversava, eis que chegam tr\u00eas senhores, sendo um deles acompanhado por uma mo\u00e7a muito jovem. <\/p>\n\n\n\n<p>Esses homens estavam de traje passeio completo (terno), com ares, modo de falar e gestos como se fossem autoridades m\u00e1ximas e poderosas (achei que fossem assessores de \u201cdeus\u201d). <\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9, o grupo se derramou junto ao dono da Ferrari, que, pelo visto, j\u00e1 o conhecia antes, e os homens se comportando como meninos ing\u00eanuos, diziam euf\u00f3ricos um para o outro: \u201c- puxa, ele tem uma Ferrari!&#8230;\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>E a jovem mo\u00e7a que acompanhava um daqueles tr\u00eas homens falou para o ferrarista, n\u00e3o sem antes dar-lhe dois beij\u00f5es, um em cada face, com um bel\u00edssimo sorriso e proclamando: \u201c- &#8230;o teu carro \u00e9 liiiinnn-do!\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9, aquele homem externava \u00eaxtase, torpor e alegria com a pujan\u00e7a de um jovem sabedor de seu poder, carisma e admira\u00e7\u00e3o: n\u00e3o escondia estar feliz pelo prov\u00e1vel sexo vindouro. <\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso por possuir aquele simples carro \u201crosso\u201d&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9&#8230; \u201cc\u2019est la vie\u201d (assim \u00e9 a vida), me rendo, reconhe\u00e7o que aquela Ferrari tamb\u00e9m at\u00e9 alterou o meu caminho&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, a mim restou saborear o prato escolhido: massa fettuccine, cozida al dente (firme e consistente), com lascas de fil\u00e9 mignon vegano ao molho branco recheado de champignons, com leve sabor de alho, com queijo Grana Padano ralado por cima, sem cebola, \u00e9 claro, regado a sobremesa de um petit g\u00e2teau e, para beber, \u00e1gua mineral sem g\u00e1s da S\u00e3o Louren\u00e7o. <\/p>\n\n\n\n<p>Com tantas experi\u00eancias sensoriais, com certeza, foi um belo almo\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beltides Rocha J\u00e1 era quase meio-dia quando bateu aquela fome. 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