{"id":464,"date":"2022-08-01T23:48:37","date_gmt":"2022-08-02T02:48:37","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadecult.com.br\/novo\/ah-os-dias-sem-reclamacao-2\/"},"modified":"2022-08-01T23:48:37","modified_gmt":"2022-08-02T02:48:37","slug":"ah-os-dias-sem-reclamacao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadecult.com.br\/?p=464","title":{"rendered":"Ah, os dias sem reclama\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Por Juliana Vidal<\/strong><\/p>\n<p>Uma escolha dif\u00edcil, para um inconformado como voc\u00ea. Fico imaginando que minhas\u00a0\u201cbrincadeiras\u201d devem ser torturas no n\u00edvel 50 tons!<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o assim. Repletas de reclama\u00e7\u00f5es feitas por pessoas que acreditam que a\u00a0conviv\u00eancia com o outro, seja um desafio, afinal, o ser humano \u00e9 mesmo complicado.<\/p>\n<p>E o que falar daquele ser humano que divide o dia-a-dia com voc\u00ea?<\/p>\n<p>Lembro em um passado remoto, que convivi com um cidad\u00e3o que achava que o fato\u00a0da cadeira de trabalho dele, ser preta, j\u00e1 era raz\u00e3o para n\u00e3o se conformar com alguma<\/p>\n<p>quest\u00e3o, que sei l\u00e1 porqu\u00ea, n\u00e3o tinha nenhuma rela\u00e7\u00e3o nem com a cor, nem com a\u00a0cadeira. E olha que mesmo eu, amante do \u201cser do contra\u201d e uma admiradora dos<\/p>\n<p>questionamentos filos\u00f3ficos, mas me impressionei com tamanha insatisfa\u00e7\u00e3o no maior\u00a0estilo Schopenhauer dessa vez.<\/p>\n<p>Mas, com toda a reclama\u00e7\u00e3o e a cren\u00e7a de que a conviv\u00eancia era complicada, para\u00a0ementa do meu paradoxo, um pouco disso, um pouco do olhar, um pouco das m\u00e3os e<\/p>\n<p>um pouco de tudo que nem posso mencionar, me fizeram enxergar, dentro daquela\u00a0montanha \u201cogrosa\u201d de reclama\u00e7\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas, existia uma criatura doce<\/p>\n<p>e muito capaz de ponderar todas as coisas (at\u00e9 mesmo as mais complicadas). Ah v\u00e1!<\/p>\n<p>N\u00e3o somos pessoas complicadas. Ser humano vive repetindo e replicando suas\u00a0complexidades, quando na verdade, o desejo de tornar tudo complicado me parece<\/p>\n<p>uma tentativa de parecermos mais inteligentes e capazes. E por que n\u00e3o fazer isso\u00a0tamb\u00e9m com os relaacionamentos?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vamos l\u00e1, nesse momento pare um pouquinho e pense de forma simples por\u00a0alguns segundos, sei l\u00e1. Apague o mundo exterior por um instante, as cobran\u00e7as, o<\/p>\n<p>status, a presen\u00e7a do olhar de reprova\u00e7\u00e3o dos demais. Delete esse sistema que\u00a0chamamos de realidade por algum tempo. O que ter\u00edamos? Ter\u00edamos um lugar<\/p>\n<p>perfeito para viver e conviver: o interior de nossas almas, ou apenas uma cozinha com\u00a0uma cama e alguns mantimentos&#8230; (e um banheiro). Ou uma barrraca de acampar,<\/p>\n<p>uma sala de aula, uma mesa de bar, sei l\u00e1. N\u00e3o acho que somos complicados n\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabemos muito bem viver com o outro. Mas de alguma forma precisamos nos\u00a0complicar, parecer complexos demais. Afinal, simples s\u00e3o as crian\u00e7as, as plantas ou os<\/p>\n<p>animais. O adulto respeit\u00e1vel carece de ser confuso, elaborado, tenso, teso, ereto,\u00a0alinhado. Diferente disso, no simplismo, ir\u00edamos parecer simples demais. Nesse caso, a<\/p>\n<p>vida seria f\u00e1cil e todo mundo seria feliz. E nos dias de caos e de desordem, nos dias de\u00a0correria e ultrapassagem, de atropelos e futilidades, quem pensaria afinal, qu\u00e3o boa a<\/p>\n<p>ideia de ser simples, poderia ser?<\/p>\n<p>Pode ser que problemas apare\u00e7am pelo fato de sermos assim, mas enquanto escrevo\u00a0ainda na cama e me espregui\u00e7o, penso que o \u00fanico problema que tenho hoje em um<\/p>\n<p>dia t\u00e3o tenso e corrido, \u00e9 lidar com o aroma azedo que exala minhas axilas, fruto de\u00a0uma suadeira simples e humana na cama ontem \u00e0 noite ao lado do homem chato,<\/p>\n<p>amoroso e reclam\u00e3o com quem partilho a vida. E isso faz meu pensamento ir longe, ir\u00a0at\u00e9 o simples, o humano, ir at\u00e9 as bobagens de casais, as conversas no meio da<\/p>\n<p>madrugada, na simplicidade da parceria, do afeto primitivo, at\u00e9 todas as pequenas\u00a0coisas que compoe a complexidade serena de se relacionar com algu\u00e9m de verdade. E<\/p>\n<p>por isso, s\u00f3 por isso, posso sorrir e assim magicamente, perder completamente a\u00a0vontade de reclamar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Niter\u00f3i, 12 de novembro de 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juliana Vidal Uma escolha dif\u00edcil, para um inconformado como voc\u00ea. Fico imaginando que minhas\u00a0\u201cbrincadeiras\u201d devem ser torturas no n\u00edvel 50 tons! As rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o assim. Repletas de reclama\u00e7\u00f5es feitas por pessoas que acreditam que a\u00a0conviv\u00eancia com o outro, seja um desafio, afinal, o ser humano \u00e9 mesmo complicado. 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