{"id":15144,"date":"2025-11-18T14:36:00","date_gmt":"2025-11-18T17:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadecult.com.br\/?p=15144"},"modified":"2025-11-18T14:37:02","modified_gmt":"2025-11-18T17:37:02","slug":"o-penalti-de-marta-o-gol-de-luana-e-a-prova-de-que-nada-e-impossivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadecult.com.br\/?p=15144","title":{"rendered":"O p\u00eanalti de Marta, o gol de Luana e a prova de que nada \u00e9 imposs\u00edvel"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Por Renata Nandes<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quando o ato participa da mudan\u00e7a no imagin\u00e1rio social <\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"984\" height=\"656\" src=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/g5m-glmwyaaluzk.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-15145\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Luana abra\u00e7a Marta ap\u00f3s marcar o segundo gol do Orlando Pride na vit\u00f3ria sobre o Seattle Reign \u2014 Foto: Twitter\/NWSL<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando a \u00e1rbitra apitou o p\u00eanalti nos acr\u00e9scimos, o roteiro parecia \u00f3bvio: Marta (nossa Marta), camisa 10 do Orlando Pride, maior jogadora da hist\u00f3ria, pegaria a bola e fecharia a vit\u00f3ria por 2 a 0 sobre o Seattle Reign, garantindo o time na semifinal da NWSL, a liga feminina dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o foi isso que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Marta caminhou at\u00e9 a marca da cal, segurando a bola, e fez um gesto simples, por\u00e9m enorme: entregou a cobran\u00e7a para a volante brasileira <strong>Luana Bertolucci<\/strong>, que tinha entrado h\u00e1 poucos minutos. Era mais do que um presente de jogo. Era um reconhecimento p\u00fablico de uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Luana voltou a atuar em setembro, depois de se afastar dos gramados para tratar um c\u00e2ncer linf\u00e1tico. Um ano antes, ela mesma n\u00e3o sabia se conseguiria voltar a jogar futebol profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Na entrevista p\u00f3s-jogo, ainda emocionada, ela resumiu a travessia em uma frase que virou manchete e mantra:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cUm ano atr\u00e1s eu nem sabia se iria jogar novamente, e hoje estou aqui. Nada \u00e9 imposs\u00edvel.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"984\" height=\"656\" src=\"https:\/\/cidadecult.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/g5mmrkawiaaadry.avif\" alt=\"\" class=\"wp-image-15146\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jogadoras do Orlando Pride comemoram o primeiro gol da vit\u00f3ria sobre Seattle Reign \u2014 Foto: Twitter\/NWSL<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O gol que vale mais do que vaga na semifinal<\/h3>\n\n\n\n<p>Tecnicamente, o lance valeu a classifica\u00e7\u00e3o do Orlando Pride para a semifinal da NWSL. Mas simbolicamente, vale muito mais.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que Marta arranca em contra-ataque, dribla o tempo e a l\u00f3gica de simplesmente \u201cchutar para longe\u201d, como ela mesma explicou (\u201ceu odeio chutar a bola para ningu\u00e9m, eu prefiro ter a bola comigo\u201d), vemos a experi\u00eancia de quem sabe administrar o rel\u00f3gio, a press\u00e3o e o pr\u00f3prio corpo \u2013 aos 50 e tantos minutos do segundo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando decide passar a responsabilidade para Luana, Marta faz outra coisa: desloca o holofote. Ela divide o protagonismo com quem passou 18 meses lutando contra um linfoma, afastada do esporte que estrutura sua identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00eanalti batido com calma, o abra\u00e7o em seguida, o choro contido na entrevista: tudo ali comp\u00f5e uma narrativa potente de <strong>reconhecimento<\/strong> \u2013 n\u00e3o s\u00f3 da jogadora, mas de todas as mulheres que, dentro e fora do futebol, precisam provar mil vezes que merecem estar onde est\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Do drama individual ao imagin\u00e1rio coletivo<\/h3>\n\n\n\n<p>Na minha pesquisa de mestrado em Comunica\u00e7\u00e3o Digital sobre o papel das campanhas e narrativas digitais no <strong>reconhecimento e na resist\u00eancia do futebol feminino no imagin\u00e1rio social brasileiro<\/strong>, uma das conclus\u00f5es \u00e9 que hist\u00f3rias como a de Luana s\u00e3o \u201cpontos de luz\u201d num cen\u00e1rio ainda marcado pela desigualdade de g\u00eanero, invisibilidade e desvaloriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que acontece com Luana n\u00e3o \u00e9 apenas \u201csupera\u00e7\u00e3o individual\u201d. Quando essa hist\u00f3ria circula em transmiss\u00f5es, portais esportivos, redes sociais, reels emocionados e posts com a frase \u201cNada \u00e9 imposs\u00edvel\u201d, ela passa a integrar o que o te\u00f3rico <strong>Serge Moscovici<\/strong> chama de <strong>representa\u00e7\u00f5es sociais<\/strong>: modos compartilhados de imaginar e falar sobre algo \u2013 nesse caso, sobre o futebol jogado por mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 <strong>Cornelius Castoriadis<\/strong> nos ajuda a entender isso como parte do <strong>imagin\u00e1rio social<\/strong>: o conjunto de significados que faz uma sociedade enxergar certos corpos como \u201cnaturais\u201d no centro do espet\u00e1culo e outros como \u201cintrusos\u201d ou \u201cexce\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, o corpo da mulher no futebol foi visto como corpo \u201cfora de lugar\u201d: proibido por lei no Brasil at\u00e9 os anos 1970, ridicularizado, sexualizado, pouco financiado. Quando uma jogadora como Luana volta de um tratamento de c\u00e2ncer e decide, diante de milh\u00f5es, dizer \u201ceu estou aqui\u201d \u2013 e uma estrela como Marta responde \u201ce eu estou com voc\u00ea\u201d \u2013, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma disputa por esse imagin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sororidade em campo: o passe que \u00e9 gesto pol\u00edtico<\/h3>\n\n\n\n<p>O gesto de Marta \u00e9 t\u00e9cnico, t\u00e1tico e profundamente simb\u00f3lico. Ao \u201cabrir m\u00e3o\u201d de bater o p\u00eanalti, ela pratica uma forma concreta de <strong>sororidade<\/strong>: usar o pr\u00f3prio capital simb\u00f3lico para alavancar o brilho de outra mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Na l\u00f3gica das redes sociais e dos grandes espet\u00e1culos esportivos, isso importa muito. As imagens de Marta sofrendo o p\u00eanalti, Luana cobrando e as duas se abra\u00e7ando j\u00e1 circulam em perfis esportivos, p\u00e1ginas especializadas em futebol feminino e p\u00e1ginas de torcedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada compartilhamento ajuda a desmontar, um pouco, aquela ideia antiga de que o futebol feminino \u00e9 \u201cmenor\u201d, menos competitivo ou menos emocionante. A cena mostra exatamente o contr\u00e1rio: alta performance, carga emocional imensa e um senso de coletivo que desafia o individualismo t\u00e3o exaltado em boa parte do esporte masculino.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Do gramado \u00e0 tela: por que precisamos contar essa hist\u00f3ria<\/h3>\n\n\n\n<p>Minha pesquisa mostra que, na era dos algoritmos, <strong>contar<\/strong> e <strong>recontar<\/strong> essas hist\u00f3rias \u00e9 parte da luta pol\u00edtica por reconhecimento. Quando a narrativa de Luana viraliza, ela:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>inspira pessoas que enfrentam doen\u00e7as graves a olhar para o pr\u00f3prio corpo n\u00e3o apenas como \u201cdoente\u201d, mas como campo de resist\u00eancia;<\/li>\n\n\n\n<li>reafirma que carreiras femininas no esporte s\u00e3o poss\u00edveis, ainda que marcadas por obst\u00e1culos;<\/li>\n\n\n\n<li>oferece novas refer\u00eancias para meninas que crescem sem se ver na tela quando o assunto \u00e9 futebol.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Em um momento em que o futebol feminino vive um crescimento global, mas ainda enfrenta desigualdades salariais, falta de cobertura midi\u00e1tica e coment\u00e1rios mis\u00f3ginos, o p\u00eanalti de Luana e o passe de Marta s\u00e3o um lembrete de que o jogo tamb\u00e9m se decide no campo dos s\u00edmbolos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, uma vaga na semifinal \u00e9 \u201capenas\u201d um degrau na tabela. Mas, de vez em quando, ela \u00e9 exatamente isso que Luana disse: a prova viva de que, para quem insiste em existir, <strong>nada \u00e9 imposs\u00edvel<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renata Nandes Quando o ato participa da mudan\u00e7a no imagin\u00e1rio social Quando a \u00e1rbitra apitou o p\u00eanalti nos acr\u00e9scimos, o roteiro parecia \u00f3bvio: Marta (nossa Marta), camisa 10 do Orlando Pride, maior jogadora da hist\u00f3ria, pegaria a bola e fecharia a vit\u00f3ria por 2 a 0 sobre o Seattle Reign, garantindo o time na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":777,"featured_media":15147,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[7,100,5334],"tags":[],"class_list":["post-15144","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esportes","category-renata-nandes","category-vozes-da-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/777"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=15144"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15144\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15150,"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15144\/revisions\/15150"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/15147"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=15144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=15144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadecult.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=15144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}