Ah, os dias sem reclamação

Por Juliana Vidal

Uma escolha difícil, para um inconformado como você. Fico imaginando que minhas “brincadeiras” devem ser torturas no nível 50 tons!

As relações são assim. Repletas de reclamações feitas por pessoas que acreditam que a convivência com o outro, seja um desafio, afinal, o ser humano é mesmo complicado.

E o que falar daquele ser humano que divide o dia-a-dia com você?

Lembro em um passado remoto, que convivi com um cidadão que achava que o fato da cadeira de trabalho dele, ser preta, já era razão para não se conformar com alguma

questão, que sei lá porquê, não tinha nenhuma relação nem com a cor, nem com a cadeira. E olha que mesmo eu, amante do “ser do contra” e uma admiradora dos

questionamentos filosóficos, mas me impressionei com tamanha insatisfação no maior estilo Schopenhauer dessa vez.

Mas, com toda a reclamação e a crença de que a convivência era complicada, para ementa do meu paradoxo, um pouco disso, um pouco do olhar, um pouco das mãos e

um pouco de tudo que nem posso mencionar, me fizeram enxergar, dentro daquela montanha “ogrosa” de reclamações e inquietações utópicas, existia uma criatura doce

e muito capaz de ponderar todas as coisas (até mesmo as mais complicadas). Ah vá!

Não somos pessoas complicadas. Ser humano vive repetindo e replicando suas complexidades, quando na verdade, o desejo de tornar tudo complicado me parece

uma tentativa de parecermos mais inteligentes e capazes. E por que não fazer isso também com os relaacionamentos?

Então vamos lá, nesse momento pare um pouquinho e pense de forma simples por alguns segundos, sei lá. Apague o mundo exterior por um instante, as cobranças, o

status, a presença do olhar de reprovação dos demais. Delete esse sistema que chamamos de realidade por algum tempo. O que teríamos? Teríamos um lugar

perfeito para viver e conviver: o interior de nossas almas, ou apenas uma cozinha com uma cama e alguns mantimentos... (e um banheiro). Ou uma barrraca de acampar,

uma sala de aula, uma mesa de bar, sei lá. Não acho que somos complicados não.

Sabemos muito bem viver com o outro. Mas de alguma forma precisamos nos complicar, parecer complexos demais. Afinal, simples são as crianças, as plantas ou os

animais. O adulto respeitável carece de ser confuso, elaborado, tenso, teso, ereto, alinhado. Diferente disso, no simplismo, iríamos parecer simples demais. Nesse caso, a

vida seria fácil e todo mundo seria feliz. E nos dias de caos e de desordem, nos dias de correria e ultrapassagem, de atropelos e futilidades, quem pensaria afinal, quão boa a

ideia de ser simples, poderia ser?

Pode ser que problemas apareçam pelo fato de sermos assim, mas enquanto escrevo ainda na cama e me espreguiço, penso que o único problema que tenho hoje em um

dia tão tenso e corrido, é lidar com o aroma azedo que exala minhas axilas, fruto de uma suadeira simples e humana na cama ontem à noite ao lado do homem chato,

amoroso e reclamão com quem partilho a vida. E isso faz meu pensamento ir longe, ir até o simples, o humano, ir até as bobagens de casais, as conversas no meio da

madrugada, na simplicidade da parceria, do afeto primitivo, até todas as pequenas coisas que compoe a complexidade serena de se relacionar com alguém de verdade. E

por isso, só por isso, posso sorrir e assim magicamente, perder completamente a vontade de reclamar.

 

Niterói, 12 de novembro de 2013.

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